sábado, 8 de dezembro de 2012

NÃO FOI no GRITO – 064.




METRÓPOLE & COLÔNIA.

“Porque os ratinhos do Douro
são grandíssimos velhacos:
em Portugal são ratinhos,
e cá no Brasil são gatos”.
OS GATOS  - Gregório de Matos – [1636-1695]

Fig. 01 – A imagem mostra a estação espacial russa SUYOZ (UNIÃO) percorrendo a órbita da Terra. A nave e o  seu foguete tiveram o 1º lançamento dos seus protótipos em 23 de abril de1967 e são os únicos operacionais em dezembro de 2012 sem a perda de uma única vida humana, Nesta data os países dividem-se naquelas que possuem domínio de viagens espaciais com projetos e execução efetiva a partir do seu território e naquelas que são meras usuárias. Estas estão restritas aos seus limites, provenientes da era industrial e como reserva de mercado. As que dominam e usam efetivamente o espaço externo estão ampliando não só a sua presença no mundo cósmico, mas estão desembarcando para a sua população as tecnologias desenvolvidos nos projetos espaciais e transformando em suas colônias virtuais aquelas não detentores desta  tecnologia espacial.

A relação entre METROPOLE e a sua COLÔNIA é sinônimo, para o cidadão contemporâneo, de dominação econômica, política e cultural. Raramente ele se dá conta que nesta relação dos componentes ocultos de onipotência, de onisciência e de onipresença são cultivados pelo dominador e são fortificados e reproduzidos de forma subliminar, silenciosa e sem grito algum. Este dominador ( metrópole) considera o outro (colônia) como um objeto do seu poder natural, reforçado e legitimado pelo sobrenatural inquestionável.

Em relação aos eventos do ano de 1822 é mais apropriado falar em INSUBORDINAÇÂO do que em SOBERANIA, pois as relações de dominadores e dominados não foram vencidos até os dias atuais. Não há lei, programa ou grito que consiga transformar os hábitos de heteronímia ou do mandonismo em relações de cidadania e de igualdade. Em dezembro de  2012, basta abrir os olhos para as favelas e os guetos sociais para perceber os atuais abismos econômicos, políticos e culturais do Brasil. O alienado para as causas destes abismos sacode os ombros e sentencia : “SEMPRE FOI ASSIM, senão PIOR !”

A escravidão, abolida em Portugal continental, em 1761, a sua abolição no Brasil foi arrastada e procrastinada muito além do famigerado “GRITO de IPIRANGA”. A aparente SOBERANIA não significou nada para os infelizes africanos... ou só piorou as suas condições e aumentou esta chaga em número e tamanho.

Neste caldo colonial remanescente não faltam, em dezembro de 2012,  movimentos culturais que buscam refúgio no mundo simbólico para estetizar e eternizar a relação opressor e oprimido. Os ingleses foram mestres na invenção das “tradições”. Tradições que lhes eram favoráveis no aspecto econômico e industrial, com o dom e a fortuna de mascarar e tornar atraentes as relações sociais de heteronímia. William John Thoms (1803-1885) apresentou no dia 22 de agoste de 1846 a “ciência do folclore”. Isto se dava no apogeu do Império britânico, as vésperas do Palácio do Cristal, um dos triunfos da 1ª era industrial britânica e índice da necessidade da expansão colonial inglesa.

Oscar Niemeyer na praça Otávio Rocha Origem da foto de Flávio DAMM da: Revista do Globo, fascículo nº 482,  14.05.1949, p. 44
Fig. 02 – Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho  15.12.1907 –  05.12.2012) posa na praça Otávio Rocha para a Revista do Globo  numa visita a Porto Alegre para presidir no Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul, a formatura da primeira turma de urbanistas com Curso Superior realizado no Brasil. Com as perguntas dos entrevistadores descobriu o hábito colonial e do pensamento linear, feito e alheio. O fato calou tão fundo que preferiu não mais realizar visitas pessoais à Porto Alegre, segundo o depoimento de Francisco Rio-pardense Macedo, um dos formandos e orador da turma. Além disto, teve o seu projeto, para o IPE-RS, desconsiderado pelas autoridades locais.Isto depois de Pampulha e sede da ONU em Nova York

O clima cultural e artístico - dominante em regiões submetidas ao regime colonial, do passado ou do presente - abafa e esteriliza qualquer reprodução estética. Por mais geniais que tenham sido alguns artistas brasileiros, do passado ou do presente, eles não conseguiram projetar - por mais alto que ela tenha sido a sua criatividade - numa escola que continuasse ou mesmo contradissesse a sua criação original. No passado um Antônio Francisco da Costa Lisboa (1730-1814), um Mário Raul de Morais Andrade (1893-1945), o movimento da Semana de Arte Moderna (1922) ou, no presente, a obra de um Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho  (15.12.1907 –  05.12.2012) cessa e se limita ao seu tempo e lugar. O Brasil não deve ser iludido. O regime colonial vigente encarrega-se de abafar e de esterilizar qualquer esforço criativo inovador. Tudo é estéril sem a alteração da mentalidade colonialista.  O clima cultural e artístico é equivocado, passageiro e um falso brilhante quando determinado pela condição colonial. Esta esterilidade é visível no apelido “Aleijadinho” ou nos apodos sintéticos “Mário da Andrade” e “Oscar Niemeyer”, prontos como rótulos abreviados de pacotes para o uso da indústria cultural e que torna tudo obsoleto e passageiro. Na educação formal brasileira estes produtos culturais são consumidos  como pacotes aprontados pela  indústria de consumo. Como tais são identificados e memorizados pelos alunos. Na mentalidade colonialista constituem apenas rótulos abreviados sem a menor crítica ou conhecimento, conexão com a realidade do estudante ou da origem e manipulação destes produtos prontos.

O Regime Colonial determina, de forma  subliminar, que os alunos permaneçam nos estágios primários, na concepção de Jean Piaget. Na sua condição colonial são prisioneiros políticos da COLABORAÇÃO COMPULSÓRIA e da PARTICIPAÇÃO EMOCIONAL. O estágio da INTERAÇÃO lhes é interdito. Consequentemente lhes é interdita a competência para discutirem as perdas e os ganhos antes, ao longo e depois das ações coletivas. Um índice é escancarado em vários partidos políticos brasileiros na sua reiterada insistência no momento da propaganda e do seu marketing e perceptível na condição compulsória da PARTICIPAÇÂO EMOCIONAL. Não há como fugir do POPULISMO nesta condição.

Fig. 03 – Uma vista da Europa (França, Paris, Canal da Mancha e Inglaterra) a noite e como a aurora boreal no horizonte Europa construída e iluminada com as riquezas das colônias que os seus países mantiveram ao longo de meio milênio.

O Brasil perdeu completamente a janela da corrida espacial e o desenvolvimento de tecnologias de informação. Esta oferecendo aos países que aceitaram, “just-of-time”, estes desafios um imenso território e uma mão de obra ansiosa para serem escravos digitais. A muralha dos fortes - geridos pela ignorância, pelas ideologias obsoletas e pelos preconceitos de toda ordem – formou e construiu um imenso reservatório para as metrópoles tecnológicas de ponta. Os desgrenhados e magros  ratos destas metrópoles são no Brasil lustrosos e atrativos gatos mimados pagos a peso de ouro, que evidentemente remetem para as suas metrópoles para estas possam construir outros patamares científicos e tecnológicos.
Imagem 1º computador com transistores (Inglaterra) denominado a “Bruxa” restaurado em 2012
Fig. 04 – Antes da "Bruxa" havia sido construído um computador nos USA tendo vomo base válvulas, Consume a energia elétrica de uma cidade média. Coube aos ingleses  montar o primeiro computador com transistores  

A situação dos Técnicos em Informação (TI) é vexatória no Brasil e a beira do servilismo com a figura do estagiário, próximo da condição que escamoteia a escravidão. Os jovens brasileiros, depois de realizarem Cursos de Tecnologia e Faculdade de informática e permanentes credenciamentos de empresas multinacionais, quando procuram emprego, não precisam caminhar muito. Na sombra das faculdades de informática eles encontram empresas  onde são acolhidos de braços abertos, se é que não pagaram os seus próprio estágios nestas casas. Mas logo descobrem que a empresa é de propriedade e é gerida por estrangeiros. Ao investigarem as causas desta relação encontra a razão de serem empresas de países nos quais a profissão de Técnico em Informação (TI) e regulamentada. Por este motivo este profissional recebe o salário oficial de $ 5.000,00 dólares. Mas como nenhum empresário quer pagar isto, basta atravessar a fronteira, se instalar com um escritório no Brasil, onde a profissão não é regulamentada, e pagar salário mínimo pelo trabalho que, de noite, é transferido para a matriz.
CALL CENTER  -in  Correio do Povo em 30.01.2011
Fig. 05 – Uma amostra de um fractal de uma colônia digital. Nesta imagem o velho hábito colonial foi preservado e projeta-se e se intensifica na forma de posse ou como “coisa [res]” que se materializa nas suas colônias virtuais.  A mão invisível e subliminar do poder da metrópole. Submete e formata a colónia  na qual o cidadão perde qualquer potencialidade para deliberar e decidir, .reconfigurando as questões que mantém a escravidão.

Esta situação é uma das razões pelas quais o Brasil é mero consumidor de informática e continua o seu caminho acelerado para ser definitivamente um colônia digital ... inclusive do Uruguai. Sem pesquisa e sem experiência de inovação, sem o domínio e vanguarda da tecnologia espacial Brasil exibe, sem gritos e silenciosamente, o triste espetáculo de uma colônia digital, a mercê dos ratos de outras culturas. Ratos que são mimados, no Brasil,  como “queridos entes domésticos”.

E nota pública do dia 05 de dezembro o sindicato dos TI publicava em Porto Alegre:

“Os trabalhadores do setor privado de TI (Tecnologia da Informação) [...] possuem uma jornada de 44h semanais. Cada vez mais, os trabalhadores são pressionados por maior produção, por cumprimento de metas e de prazos e por atualização. O piso salarial de um analista de sistemas com mais de um ano de trabalho na mesma empresa e com jornada de 44h semanais (maior piso salarial da categoria de TI), não passa de R$ 2.100,00. Enquanto isso, a economia do Brasil cresce e o setor de TI é um dos que mais lucra no país. Nos últimos três anos, o mercado de TI cresceu 61% e o PIB (Produto Interno Bruto) do setor já alcança 103 bilhões de dólares. O sindicato dos empresários (Seprorgs) só quer pagar o INPC (5,99%) e rejeita qualquer proposta de redução de jornada”.[1]

O Brasil voltou ao regime colonial. Regressa como provedor, para estrangeiros, de força de trabalho abundante, ignorante de si mesma e desconsiderada pelos que a contratam. O Brasil retorna ao regime colonial como fornecedor de matérias primas – commodities -  aos países com experiência de inovação, com domínio e vanguarda da tecnologia espacial. Assim tornam-se metrópoles na medida em que deliberam e decidem, e o Brasil obedece, e se condiciona a eles, permanecendo numa perpétua heteronímia.




No colonialismo digital qualquer sinal de desagregação, do rebanho em marcha ao matadouro, é punido de forma pública e exemplar. Controle e punição pelo descarte e segregação muito mais cruel e duradouro do que o suplicio truculento e pontual de Joaquin José da Silva Xavier (1746-1792).









[1]  -CORREIO do POVO ANO 118 | Nº 66 PORTO ALEGRE, QUARTA-FEIRA, 5 DE DEZEMBRO DE 2012 p.04
Fig. 06 – A casa comercial que vendia pessoas e mão obra adulta e infantil numa  imagem de Jean Baptiste Debret, mostrando um deste numerosos estabelecimentos no Valongo  junto ao porto do  Rio de Janeiro.
VALONGO – tese de Cláudio da Paula HONORATO

O Brasil exibe na era pós-industrial a condição atualizada deste regime colonial.  Corre atrás de países que são minúsculos física e economicamente. O gigante exibe o triste espetáculo de uma colônia digital, a mercê dos ratos de outras culturas. Em vez das minas de ouro - do regime colonial ou aquelas de Serra Pelada, ouro do qual poucos brasileiro sabem o destino -  agora é a vez do nióbio ser objeto da ganância e negócios dos qual poucos brasileiros sabem o destino e muito menos detém qualquer deliberação ou decisão a favor de toda nação brasileira. Como fornecedors de matérias primas os brasileiros são colocados como mão de obra, com inteligência e com vontade na heteronímia das economias, políticas publicas originárias de países com experiência de inovação, com domínio e vanguarda da tecnologia espacial. Este neocolonialismo é silencioso e praticado com o apoio da cultura jurídica destes povos como o cumprimento integral das normas jurídicas formais brasileiras como sempre aconteceu no Regime Colonial. A escravidão era legal como as mais estranhas práticas, como a roda dos expostos, onde nasciam e se legitimavam “as crianças de rua”. A reprodução física a mão de obra escrava tinha ampla participação do dominador branco. Esta ação do reprodutor branco - sem grito, clandestina e silenciosa - é gritantemente visível em todos os tons de pele da atual população brasileira.
Fig. 07 – Nesta imagem  um bando de adolescentes armados é liderado por um adulto em posição  de realizarem a Justiça com as próprias mão e abrirem caminho para o livre curso da delinquência

O papel da autoridade colonial era vigiar, punir e prender invariavelmente os que interferiam na ordem pública. Estas autoridades eram simultaneamente legisladores, executivos e juízes. Como militares e presidentes das províncias coloniais eram “culpados de tudo”. Se não conseguissem dar conta do recado, eram julgados por uma corte militar e enforcados, como aconteceu com um cortejo de generais lusitanos.

Num Regime Colonial não há possibilidade de delegação de competências de autoridade e discutir limites de poder. O poder e os seus limites já foram determinados como únicos, fixos e invioláveis. Neste panorama apenas existem “culpados de tudo” e herdeiros naturais do poder

Mesmo no âmbito interno do REINO UNIDO PORTUGAL-ALGARVES e BRASIL há discrepâncias atrozes e legalmente sustentadas por uma hermenêutica, no mínimo suspeita. Pergunta-se:

-  De que forma a escravidão legal podia continuar no Brasil quando em Portugal continental era já havia sido extinta legalmente em 1761?

- Que “unidade” era esta?

Evidente que a cultura portuguesa continuou  coerente com o “Ancien Regime” e onde o Brasil Colonial entrava como “coisa [res]”.
 Os fortes abalos institucionais desta autoridade natural e indiscutível - das quais a revolução Francesa (1789) foi um prelúdio e uma amostra – foi percebido pelo redator do Correio Braziliense. Esta percepção fazia com que ele encerrasse as suas considerações, em dezembro de 1812, apelando para um potencial contrato entre o Governo, desta autoridade natural e indiscutível, com o novo Poder Originário emergente:

“Nós fomos levados a estas observaçoens, pelo respeito que temos á Constituição de Portugal; e se estamos enganados, desejaríamos que alguns dos Senhores, que se lembraram do expediente desta portaria, em vez de chamar as Cortes, como fez o patriótico Rey D. Joaõ IV. e pedir-lhe os auxílios necessários para a guerra; nos dem melhores razoens que as nossas, e entaõ nos convenceremos: do contrario continuaremos persuadidos, que esta medida deve causar uma revolução na Constituição de Portugal, de consequências funestas â regularidade de seu Governo”
Correio Braziliense, vol. IX. nº 55 dezembro de 1812, Política, pp. 918-919

Porém o apelo ao potencial contrato entre o Governo, desta autoridade natural e indiscutível com o Poder Originário era incapaz de alterar o velho hábito colonial. O Brasil constava apenas como “coisa [res]” e entrava como posse de fato da Metrópole lusitana a ser negociado com uma corte formal e legal para “inglês ver”.

O Brasil preserva, em dezembro de 2012, o velho hábito colonial, quando muitas nações já estão na era pós-industrial. Este velho hábito colonial foi preservado e projeta-se e se intensifica na forma de posse ou como “coisa [res]” que se materializa nas suas colônias virtuais. O Brasil é tratado externamente como “coisa [res]” nesta relação das metrópoles digitais e espaciais em forma reinventada de colônia.  O Brasil é tratado, internamente como posse pessoal por aqueles que se apoderam e usam o Poder Originário e com esta mentalidade o  administram. O velho hábito colonial do Brasil  faz com que a população se comporta como aquele que não tem nada a ver com isto, além de temer os desmandos daqueles que se dizem “donos do poder” na concepção de Faoro e de Wright Mills.  Aqueles que ocupam temporariamente cargos e funções são percebidos como “culpados de tudo”, pela população cativa do hábito renovado e atualizado do Brasil colonial, no âmbito da máquina publica (res pública). Situação natural muito cômoda, pois esta mentalidade passiva, isenta e retira qualquer sanção moral nas eleições obrigatórias com um voto para cada eleitor. Neste velho hábito colonial do Brasil, o mais votado recebe o prêmio ou castigo de ser o “culpado de tudo” enquanto cidadão vai cuidar da sua vida e sem se lembrar em “quem votou obrigatoriamente”. Nesta circunstância fica feliz quando alguém aceita repetir a dose do mandato, ou quando alguém indica a próxima vítima, preferencialmente sem passar pela vexatória situação de ser votado no interior do partido.
PRESO  ENTALADO   04.12.2012 in http://www.aquiagora.net/noticia.php?id=29768
Fig. 08 – O papel do presidiário é procurar evadir-se de todas as maneiras possíveis. O papel do poder público, além de julgá-lo publicamente e prendê-lo, recebe, em suas mãos, a vida deste presidiário. Num relação colonial o papel do Estado termina neste ponto. Numa cultura onde o poder originário vai muito além de formar um júri pontual popular e formal, existe a discussão, as medidas efetivas e as consequências das causas deste delito. Discussão lúcida e consequente da natureza e dos perigos deste delito. Discussão do que a criminalidade e a apatia popular representam para o equilíbrio homeostático de uma civilização em construção permanente. Construção onde é necessário evitar entregar-se às forças elementares da  Natureza como também evitar a alienação do salto para o imponderável e o sobrenatural.

 Nesta situação neocolonial  alastra-se, cada mais, a mancha dos legal e formalmente excluídos. Assim cresce de forma assustadora a a indústria e a reserva daqueles legalmente excluídos legalmente e destinados aos presídios povos. Reserva disparatada de uma potencial força de trabalho e de inteligência e vontade que possui apenas os destino da vilania e do desperdício. Desperdício dos lixões humanos em que transformou o sistema prisional brasileiro e muito pior e desumano do que as masmorras dos fortes militares do Brasil Colônia.
Fig. 09 – Três mundos  sem conexão. O fechado mundo ideal e imaginado do gasto suntuário, sobrepõe-se e se confronta com  o mundo aberto, real e concreto do trabalho com as mãos e com as sobras de uma civilização predadora. Os “hieróglifos” dos pixos,  falam de um mundo anárquico e caótico para qual não fazem sentido nem o mundo imaginado nem  o mundo real..

Nesta situação neocolonial  o cidadão avulso, ainda gozando da liberdade, necessita de extremo cuidado em qualquer contrato. Pois o contratante, na situação colonial, está na busca, de fato, do seu escravo, do seu servo e do súdito dos seus desígnios. A Justiça brasileira está atulhada de processos decorrentes deste equívoco do contratado e tardiamente descoberto por ele. Processo nos quais os lucros foram embolsados pelos contratantes inescrupulosos, enquanto as perdas decorrentes dos trabalhos foram colocados nas costas dos contratados. O projeto colonial metropolitano possui, na sua essência, o objetivo de se apropriar dos lucros e socializar as perdas nas suas colônias. Este projeto metropolitano é vigente em dezembro de 2012 ainda permanecerá inalterado sem a interferência ativa da inteligência, da vontade e do direito de quem propõe e de quem aceita qualquer contrato.

- New York Times - em 06.11.2012  - fila de votação na localidade  Viena USA -
Fig. 10 – O mundo contratual no qual o voto é livre  faz com as deliberações e decisões sejam consequentes antes, durante e depois do pleito. Um cargo público é discutido antes, durante e depois de assumidos por alguém que sabe  e respeita o direito ao exercício  das suas funções previstas em contrato no âmbito da constituição nacional.

 A Democracia supõe sempre a cuidadosa, lúcida discussão antes, durante e depois de qualquer ação, a quem cabem as perdas e os lucros. Esta situação neocolonial é a origem de todo engessamento, atraso e heteronímia da cultura e da tecnologia brasileira atual. Até o pensamento criativo dói nesta situação neocolonial. Melhor, mais seguro e mais confortável é aceitar - e colocar em prática - o pensamento testado nas metrópoles hegemônicas, não importando a mentalidade, a ideologia, o lugar e o tempo deste teste. 

Sobre todo este cenário passam rápidos e invisíveis os satélites estrangeiros. No Brasil eles servem para serem alugados e abastecer as antenas que dominam prédios e a paisagem na qual se difundem eventos, marketing destinado para alienar multidões. Difusão controlada e editada para manter na inércia aqueles a quem se quer vender “a cadeirinha, ou sofá, do céu dos bobocas” ou aquele do “dever cumprido”.

O Brasil libertou-se do arcaico regime colonialista nos moldes lusitanos. Porém o hábito de heteronímia brasileira persiste.  Mais do que nunca, em dezembro de 2012, multiplicam-se os efeitos mais intensos, silenciosos e perniciosos deste hábito da heteronímia brasileira.  Com a afirmação  e o avanço de novas metrópoles da era pós-industrial esta cultura de dependência ganha força e se multiplica ao infinito. Os concorrentes da era pós-industrial podem considerar as  metrópoles emergentes como ratinhos. Porém no Brasil, em dezembro de 2012, são tratados ainda como gatos valentes, inteligentes e éticos na coerente e persistente visão sarcástica de Gregório de Matos (1636-1695).

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

FAORO, Raymundo (1925-2003). Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro.            Porto Alegre – São Paulo : Globo e USP, 1975.  2v.

FOUCAULT, Michel (1926-1984).  Microfísica do poder. Rio de Janeiro : Graal, 1995. 295.

GREVE dos TRABALHADORES do SETOR PRIVADO de  TI  a PARTIR do DIA 6 de DEZEMBRO de 2012
CORREIO do POVO ANO 118 | Nº 66 PORTO ALEGRE, QUARTA-FEIRA, 5 DE DEZEMBRO DE 2012 p.04

PIAGET, Jean (1896-1980)  Epistemologia Genética(2ª ed) São Paulo : Abril Cultural          1983.  294 p.

VILHENA, Luís Rodolfo da Paixão. (1963-1997). Projeto e Missão. O Movimento Folclórico Brasileiro, 1947-1964. Rio de Janeiro: Funarte/Fundação Getúlio Vargas. 1997, 332 pp.

WRIGHT MILLS Charles (1916-1962). A elite do poder. 3.ed.  Rio  de Janeiro : ZAHAR, 1975,   421p

FONTES NUMÉRICAS DIGITAIS





COLONIALISMO  & TRABALHO CONTEMPORÂNEO

ELTON JONES em PORTO ALEGRE a ingressos a R$ 750,00

ESCRAVIDÂO ABOLIDA em PORTUGAL CONTINENTAL em 1761

DELIQUENTES - TRABALHO INÚTIL da POLÍCIA e RESPOSTA da JUSTIÇA


MEXICO AMEAÇA ECONOMIA do BRASIL


O CENTRO do MUNDO está ONDE  me COLOCO - RIO PARDO pelas lentes de Ivan Winck

OS GATOS  - Gregório de Matos – [1636-1695]
PRIMEIRO COMPUTADOR  DIGITAL  [com transistores eletrônicos]

PRESO  ENTALADO   04.12.2012

SUYOZ – foguete e estação espacial russa: 1º lançamento em 23.04.1967

TRAFICANTES do RIO de JANEIRO

VALONGO – Tese de Cláudio da Paula HONORATO

Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho  15.12.1907 –  05.12.2012)
Oscar Niemeyer  em PORTO ALEGRE no blog :ISTO é ARTE mantido por esta autor
Oscar Niemeyer  no Le Monde de  06.12.2012 .
Oscar Niemeyer  no The GUARDIAN 06,12.2012
Oscar Niemeyer  no New York Times em  06.12.2012
Oscar Niemeyer  no SPIEGEL – Senhor das Curvas
HOMENAGEM REGIONAL a  Oscar Niemeyer 
Oscar Niemeyer  CATEDRAL de BRASÌLIA e MEMORIAL da AMÈRICA LATINA em  360º

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SUMÁRIO do 1º ANO de postagens do blog NÃO FOI no GRITO
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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

NÃO FOI no GRITO – 063.


Uma JOVEM DEMOCRACIA em GUERRA com a sua EX-METRÓPOLE em 1812.

“Na Gram Bretanha esta offerta pacifica foi regeitada, em conseqüência de uma manifesta repugnância em suspender a practica das prisoens dos marinheiros, durante o armisticio; e sem nenhuma intimaçaõ de que o arranjamento proposto, a respeito dos marinheiros, seria aceito”. Correio Braziliense, vol. IX. nº 55 dezembro de 1812, Política, p. 863

Fig. 01 – O combate naval, em frente a costa do Brasil, no dia 29 de dezembro de 1812, foi vencido pelos norte-americanos do “Constituition” que aniquilaram o navio britânico “ Java”.

Em 1812 os Estados Unidos da América completavam 36 de sua independência da Grã Bretanha. Porém esta fazia ouvidos moucos à soberania de suas ricas 13 colônias. Os ingleses agiam como se nada tivesse acontecido. Navegavam nas águas territoriais de sua ex-colônia sem a menor consideração da sua soberania. Prendiam navios - sob bandeira ianque -  e obrigavam os marujos, destas naus americanas, a trabalhar nos seus navios como súditos britânicos, senão como servos de 2ª classe.
Os protestos americanos nada significavam ou adiantavam. Não restou alternativa do que declaração formal do estado de guerra aos britânicos. Esta guerra inesperada, mas necessária, esteve cheio de episódios contraditórios, incompreensível e quase esquecidos dois séculos depois. Inclusive uma batalha naval foi travada na frente da costa brasileira, no dia 29 de dezembro de 1812, da qual saiu triunfante a nau americana “Constituition” contra o navio britânico “Java”. As derrotas em terra fizeram com que os norte-americanos abandonassem a sua ambição de controlarem os Grandes Lagos e parte considerável do Canadá.

Fonte da imagem em ATHEARN, Robert -  1963 - p.339
Fig. 02 – Um marinheiro americano numa escultura de madeira de 1800. Marujo era um cidadão como os demais, que, para os ianques, com os mesmos direitos e deveres. Isto era inconcebível para os britânicos que continuavam a considerar, estes marujos, como vassalos e servos de 2ª classe vindos da periferia, e, portanto, sob o regime colonial.

A guerra foi declarada e travada ao meio da administração, 1809-1817, de JAMES MADISON (1751-1836) o 4º presidente dos Estados Unidos. Esta guerra trouxe uma preciosa lição ao Brasil de 1812.  Ficava evidente que a Independência não podia ser um simples grito ou texto jurídico isolado e descolado tanto do Poder Originário luso-brasileiro. Assim a década de 1812 até 1822 foi aproveitada pra conhecer, avaliara e agir de forma que o fato fosse definitivo, irreversível e com o menor derramamento de sangue ou a sustentação de uma ruinosa guerra pela soberania do Estado Brasileiro. De outra parte ia também água abaixo qualquer veleidade de um mundo politico unificado  luso fônico ao modelo da Common Law ou Commonwealth.

Fig. 03 – Um deboche britânico à Democracia norte-americana coloca na boca do presidente ianque a frase “ Cidadãos. Lamento não poder chamar vocês como lordes e cavalheiros  “  onde até os cachorros tinha voz, na visão desta caricatura. Este deboche temerário tinha como alvo o paradigma da Democracia norte-americana nutrido com as ideias revolucionarias francesas que se escondiam atrás cadeira presidencial norte-americana.  

O Correio Braziliense estampava as duas falas do ano legislativo de 1812, tanto das autoridades britânicas como o discurso contraposto do presidente norte americano James Madison. Como em toda guerra a primeira vítima, de 1812, foi a Verdade, como continua a acontecer em dezembro de 2012.
Esta guerra contrapunha dois paradigmas, na medida em que todo paradigma é íntegro e integral.  De um lado, a Inglaterra era uma monarquia e a “fala de Sua Alteza Real, o Príncipe Regente, na abertura do Parlamento, aos 30 de Novembro, 1812” inicia com “MY LORDS, E SENHORES!”. No meio pode-se ler a expressão da “lealdade, e afeição dos vassalos de Sua Majestade” e conclui com o desejo “a prosperidade real, liberdade, e felicidade dos vassalos de S. M” .
Do outro do Atlântico os Estados Unidos são uma democracia. A “Mensagem do Presidente ao Congresso, na abertura da Sessão, em 4 de Novembro de 1812” , do 4º presidente (1809-1817),  JAMES MADISON (1751-1836), dirigia-se direta aos “Concidadãos do Senado, e à Casa dos Representantes”.

Fig. 04 – O grande medo britânico - no seu deboche à Democracia norte-americana - era a proximidade com as ideias e o paradigma da Revolução Francesa. A designação “cidadãos”  vinha diretamente desta Revolução e uma ameaça mortal a todas as cabeças coroadas e nobres do mundo inteiro
         Os LORDES e os SENHORES britânicos ouviram do seu principe:
“a declaração de guerra do Governo dos Estados Unidos da America, foi feita em circumstancias que podiam racionavelmente offerecer a expectaçaõ de que se naõ interromperiam por longo tempo as relaçoens d' amizade entre as duas naçoens. He com sincero pezar, que me vejo obrigado a informar-vos, que o comportamento e pretensoens daquelle Governo, tem até aqui impedido a conclusão de algum arranjamento pacifico. As suas medidas de hostilidades se tem principalmente dirigido contra as provincias Britannicas vizinhas, e se tem feito todos os esforços para seduzir os habitantes de sua homenagem a Sua Majestade”.
Certamente “a conclusão de algum arranjo pacifico” preludiava a sentença “o que eu espero, senhores, é que depois de um razoável período de discussão, todo mundo concorde comigo” no cínico projeto do primeiro ministro britânico Winston Churchill. Esta tática expressa a clássica ação do negociante britânico. Atordoar o seu interlocutor com propostas ocas e sem sentido, até cansá-lo e exasperá-lo ao extremo. Neste momento de cansaço supremo, apresentar, resumida e rapidamente, aquilo que de fato interessa, arrancando do seu interlocutor a deliberação e a decisão que seja favorável ao britânico.
 
JAMES MADISON 1751-1836 - 4º presidente USA 1809-1817 We the people
Fig. 05 – A imagem do 4º presidente norte-americano James MADISON (1751-1836) está associada ao seu papel constitucional. No núcleo de suas preocupações estava o PODER ORIGINÀRIO da NAÇÂO. Os nobres e a coroa britânica tinha grande medo deste PODER ORIGINÀRIO, especialmente depois da guilhotina da Revolução Francesa. Assim restava um equilíbrio precário garantido pelo dinheiro, pela marinha e as armas, para salvar os seus pescoços e suas perucas arcaicas. Na superfície levavam seu deboche temerário do paradigma da Democracia norte-americana nutrido com as ideias revolucionarias francesas.

O fracasso ianque da sua expedição ao Canadá, Grandes Lagos e Niágara é destacado e comemorado pelo Príncipe Regente britânico como
“... provas que tenho recebido de lealdade, e affeiçaõ dos vassallos de S. M. na America Septentrional, saõ de grande satisfacçaô. As tentativas do inimigo em invadir o Canada Superior, naÕ somente abortaram, mas alem disso, pelos judiciosos arranjamentos do Governador General, e pela habilidade e decisão, com que foram conduzidas as operaçoens militares, foram obrigadas a capitular as forças, que o inimigo tinha ajunctado para aquelle fim, eem uma parte; e, em outra, completamente derrotadas. Naõ faltarão os meus melhores esforços para o fim de restabelecer as relaçoens de paz, e amizade entre os dous paizes ; porém, até se poder alcançar este objeto sem sacrificar os direitos marítimos da Gram Bretanha, eu descançarei no vosso cordeal opoio, na vigorosa continuação da guerra”.
Correio Braziliense, vol. IX. nº 55 dezembro de 1812, Política, pp. 855 e 856

ROSSITER Thomas et MAGNOT Louis  - LAFAYETTE visita, em 1784, a GEORGE WASHINGTON – óleo  221 x 372.1 cm  Museu Metropolitano NY
LAFAYETTE (1757-1834) visita  em 1784 a GEORGE WASHINGTON (1732-1799)  e a sua família. Fonte  em ATHEARN Robert -  1963 - p.279
Fig. 06 – A proximidade entre as ideias da Revolução Americana (1776) e o paradigma da Revolução Francesa (1789) conferiam sentido ao medo britânico e ao seu deboche à Democracia norte-americana que os ingleses ainda não haviam assimilado em 1812. Além disto,  as Treze Colônias haviam quase dobrado de tamanho físico com a compra da LUISIANA, adquirida da França, por 5 milhões de dólares, por meio de diversos tratados fechados 1803 com os franceses.

Os norte-americanos conheciam, contudo, muito bem as táticas e artimanhas inglesas e as inverteram a seu favor. Assim, o mesmo assunto é ouvido pelos representantes norte-americanos. Este tema ocupa toda a fala presidencial do início do ano legislativo de 1812. O 4º presidente (1809-1817) dos Estados Unidos JAMES MADISON (1751-1836) reconhece, depois de diversas considerações sobre o tema, as consequências funestas do fracasso da expedição ao Canadá, Grandes Lagos e Niágara. Mas relata as providências diplomáticas:
“Desejando anxiosamente abreviar os males de que naõ pode estar izento um estado de guerra, naõ perdi tempo, depois que ella se declarou, em transmittir ao Governo Britannico, os termos em que se podiam fazer parar os seus progressos, sem esperar as delongas de uma pacificação formal e final: e, ao mesmo tempo, o nosso Encarregado-de-Negocios em Londres foi authorizado a concordar em um armistício, fundado sobre elles. Estes termos requeriam, que fossem revogadas as Ordens em Conselho, no que respeita os Estados Unidos, sem se reviverem os bloqueios que violam as regras estabelecidas ; que houvesse uma immediata demissão de todos os marinheiros Americanos, que se acham a bordo dos navios Britannicos; e suspensão das prisoens de marinheiros a bordo dos Navios Americanos; com a inteligência de que seria estipulada a exclusão dos marinheiros de cada uma das naçoens dos navios da outra; e que o armisticio se tornaria em um ajuste definitivo, e compreensivo das controvérsias pendentes”.
Correio Braziliense, vol. IX. nº 55 dezembro de 1812, Política, p. 862

http://www.warof1812.ca/forts.htm  +   h. a. ogden military lithograph 
Fig. 07 – As tropas terrestres ianques - se tiveram fracasso na pretendida ocupação de novos territórios -, mostraram todo o seu valor na defesa interna como ocorreu em Nova Orleans. De outra parte os modernos exércitos foram os primeiros destinatários do design, da linha de montagem da linha montagem da 1ª era industrial.  As suas armas, produzidas e larga escala,  como os seus uniformes e os meios logísticos, tanto eram destinados para a sua eficácia, como para a sua obsolescência e destruição massiva.

            Os norte-americanos não se deixavam atordoar pelas propostas ocas e sem sentido dos ingleses cujo objetivo era cansá-los e exasperá-los. Sabiam, que neste ponto não podiam cansar deixar-se atordoar e a voltar a serem considerados vassalos indiretos e manipulados pela Inglaterra. Trabalhavam, no meio do maior sufoco, para que as deliberações e a decisões fossem consideradas soberanas dentro do principio da cidadania e da fonte do seu próprio PODER ORIGINÁRIO
Fig. 08 – O fracasso das tropas terrestres norte-americanas na ocupação do Canadá, dos Grandes Lagos e do Niágara  foi comemorado pela coroa britânica e serviu para apurar até que limite ia a União das Ex-colônias gerando uma avaliação severa

“Ainda que tinha ja succedido uma revogação daquelas Ordens, susceptível de explicaçoens que satisfariam as vistas deste Governo, antes que fosse communicada ao da Gram Bretanha esta offerta pacifica, a offerta foi regeitada, em conseqüência de uma manifesta repugnância em suspender a practica das prisoens dos marinheiros, durante o armisticio; e sem nenhuma ihtimaçaõ de que o arranjamento proposto, a respeito dos marinheiros, seria aceito. Resta inda a saber se as communicaçoens subsequentes deste Governo, que offerecem uma oceasiaõ para a Gram Bretanha tornar a considerar a matéria, seraõ ou naõ recebidas com um espirito mais conciliador. Seria imprudente afrouxar as nossas medidas, em algum respeito, na presumpçaõ de tal resultado. Os documentos da Repartição de Estado, que dizem respeito a este objecto, daraõ também uma vista das proposiçoens para o Armistício, que aqui se receberam, — uma dellas, das authoridades de Halifax, e Canada; e a outra do mesmo Governo Britannico, por via do Almirante Warren; e dos motivos porque nenhuma delas podia ser aceita”
Correio Braziliense, vol. IX. nº 55 dezembro de 1812, Política, pp. 862 e 863

Fig. 09 –  O discurso patético da gravura de George CRUIKSHANK (1792-1878) denominada  “Britânia e as Virtudes da Constituição” é um índice da retórica britânica distante do Poder Originário e contraditoriamente busca meios visuais para comover este mesmo povo com o dramalhão kitsch na linha das novelas televisiva do ano de  2012.

Além do conteúdo intrínseco destes dois paradigmas, tão antagônicos, publicados na íntegra, é admirável é que este texto do pronunciamento da autoridade norte-americana fosse publicado na Inglaterra, antes de qualquer desfecho diplomático, sem sofrer qualquer censura breve ou reparo.  Sinal também que as declarações das nações antagônicas e beligerantes estavam circulando, não só neste periódico, mas também nos demais periódicos impressos. De outra parte a Inglaterra estava na frente em número, qualidade e na pesquisa da indústria gráfica mundial.

Fig. 10 –  O ano de 1812 foi para a Marinha Norte Americana um ano de duras e enérgicas provas e reversões da sua fortuna e de consagrações inéditas que criaram sementes ainda visíveis em 2012. Os recorrentes confrontos com a Rainha dos Mares da época gerou uma moral que o “marines” ianques cultivam até o atualidade e a torna onipresente nos piores confrontos.

Esta nova prova, do ano de 1812, mostrou para a Democracia americana até que ponto ela poderia desenvolver os conceitos de cidadania. Conceitos de cidadania associada à livre iniciativa com um projeto estatal que manteve intacto, em 2012,  o seu pacto de nação a partir de sua declaração de soberania nacional declarada em 1776. Soberania de nação hábil e constantemente acompanhada regada, desde a sua origem, com uma constituição breve e lúcida. Constituição que funciona como fonte de um projeto duradouro de cidadania e das suas eventuais e passageiras lideranças políticas. A partir desde projeto é possível definir a historicidades desta nação de múltiplas e contraditórias origens.

Fig. 11 –  O tratado celebrado no dia 20 de agosto de 1794 com os indígenas das planícies dividiu profundamente os britânicos e os norte-americanos. No seu discurso, ao Congresso, no dia 04 de Novembro de 1812, o Presidente acusava os ingleses de se valerem da natural temeridade e crueldades dos indígenas nas guerras para insuflarem verdadeiros atos de barbárie e fora de qualquer norma de guerra. Nesta imagem representam-se dois extremos da múltipla cultura norte americana. O europeu, dominado por rituais e pela etiqueta de uma civilização artificial,  defronta-se com a criatura humana entregue à Natureza e as seus ciclos implacáveis. O afro descendente veio dar a sua contribuição a estes dois condicionamentos, á qual foi cimentada por etnias de todo o planeta.

Uma guerra sabe-se como começa, mas nunca como termina. Parece que os ianques estão aprendendo isto no Afeganistão, como aprenderam no Iraque ou Vietnã. Uma guerra é hedionda, ela mata inocentes, gasta energias irrecuperáveis e torna antipáticas as eventuais conquistas. Pior, os despojos de guerra desagregam uma nação entre os que usufruem do  potin e os excluídos...

MADISON - JAY e HAMILTON com seus manuscritos e obras editadas - Fonte da imagem em ATHEARN Robert -  1963 - p.274
Fig. 12 –  O reconhecimento norte americano ao seu 4º presidente foi colocar a imagem de James MADISON (1751-1836) numa das cédulas de maior valor emitido pelo tesouro dos Estados Unidos. Esta homenagem é coerente com o povo que possui um enorme potencial empreendedor. Um povo que acredita se motiva e avalia o seu trabalho pelo retorno financeiro. A moeda norte-americana tornou-se de enorme circulação mundial inclusive depois de abandonar o lastro ouro e passar a se regular pela força de trabalho ativa no país.

No episódio de 1812 parece que não houve lucros matérias Entre os lucros imateriais restou a maior lição. Esta lição foi que a Democracia não é dada gratuitamente de pai para filho algo ou algo vindo da Natureza. Cada cidadão dos Estados Unidos sentiu-se estimulado e na obrigação, como Poder Originário, a tomar decisões pessoais, assumir ações, contabilizar perdas e lucro, e no final, pronunciar-se sobre o condicionamento sob o qual ele queria viver. Estes cidadãos aprenderam, com mais este episódio, que, para manter este contrato e reproduzi-lo, séculos afora, vale a pena avaliar todas as complexas condições e vetores que a Democracia exige.

Fig. 13 –  As vigorosas instituições da cultura norte-americana estão acima do seu imenso patrimônio econômico, produtivo e acumulação de bens materiais de toda ordem. Estas instituições são sustentadas pelos técnicos que são selecionados entre os mais competentes e cuidadosos profissionais.  Os seus bem cuidados arquivos guardam a memória dos feitos deste povo e de tudo o que dignifica a espécie humana. A sua sintética Constituição suscita esforços permanentes dos seus juristas para que ela seja coerente com os novos tempos e lugares.

Um século depois - desta guerra ianque britânica -  a norte-americana Mary Parker Follet (1869-1933) enunciou “o meu teste como cidadã democrática  é quão plenamente o todo é expresso em mim ou através de mim”[1] como índice comprovado da autêntica competência neste regime. Certamente os lordes e o cavalheiros britânicos tinham muitas dificuldades para entenderem este teste, má vontade ao se julgarem no direito de serem os herdeiros naturais de um longo domínio político, militar e, na nova era industrial, líderes econômicos e tecnológicos. Mas tudo isto foi aprendido rapidamente pelos cidadãos dos Estados Unidos, graças aos compromissos que assumiram neste seu regime, e, com este meio,  ultrapassaram amplamente os lordes e os cavalheiros que mandavam na sua ex-metrópole.


[1] CARVALHO, Maria Lúcia. Escola e democracia: subsídio para um modelo de  administração segundo as ideias de Mary P. Follet.   São Paulo : EPU, 1979.  p. 60.
 

Charles Willson  PEARLE e a sua família no seu atelier em 1773 - Fonte da imagem em ATHEARN Robert -  1963 - pp.352/3
Fig. 14 –  Uma pintura destas seria impensável para uma família brasileira no regime colonial lusitano. Não só estava proibido a atinta à óleo, ,como algo supérfluo, mas qualquer retrato coletivo No Brasil era permitida a representação, no máximo, do rei, do bispo ou de algum provedor da Santa Casa. A cidadania norte-americana

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

ATHEARN Robert (1914-1983) A World Power: The American Heritage new Illustrated History of the United States . vol 12 New York: del Publishing . co 1963 pp. 993- 1078

CARVALHO, Maria Lúcia. Escola e democracia: subsídio para um modelo de  administração segundo as ideias de Mary P. Follet.   São Paulo : EPU, 1979.  102p.

FONTES NUMÉRICA-DIGITAIS

Batalha dos navios CONSTITUTION x JAVA nas costas do Brasil em 29. 12.1812
Site do navio de guerra CONSTITUTION USA 2012

CORREIO BRAZILIENSE nº 055 – dezembro de 1812

CRUIKSHANHG George

IMAGENS da GUERRA de 1812
Henry (Harry) Alexander OGDEN ( 1856-1936) H.A.Ogden

OPOSIÇÃO à GUERRA de 1812
http://www.aurorasentinel.com/guide/travel/war-of-1812-bicentennial-sites-events-all-over-us/

Visão inglesa da Guerra Peninsular 1808-1814

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