sábado, 7 de novembro de 2015

127 – NÃO FOI NO GRITO.

Em novembro 1815, como em 2015,
É PÉSSIMA a CORRUPÇÃO dos ÓTIMOS. 
Francis-Auguste BIARD (1799-1882) A venda de escravos[1]
Fig. 01 – ¿ O que se poderia esperar da  economia brasileira movida pelo braço escravo e sob o jugo colonial? Esta ECONOMIA BRASILEIRA  de fato não existia. Economia a mercê do colonizador que, por sua vez, devia até as caças aos ingleses. Era  movida a escambo e trocas de favores. O primeiro Banco do Brasil teve os seus fundos raspados quando a corte voltou para Lisboa.   

“Não basta adoptar um bom sistema; é, também, preciso não destruir a sua bondade pelo mau modo da execução”.
 CORREIO BRAZILIENSE – Novembro de 1815 p. 631

Em novembro de 1815 a ECONOMIA LUSO-BRASILEIRA tinha razões e desculpas para ser precária e estrar estraçalhada. Afinal sempre havia a desculpa de que o território português havia sido invadido fisicamente três vezes pelas tropas napoleônicas. O Brasil Colônia havia realizado um esforço para acolher uma corte que não tinha nada a oferecer além de ser um peso econômico, social e político.
Porém em novembro de 2015 ¿Qual a calamidade a ser invocada para a ECONOMIA BRASILEIRA continuar os mesmos sintomas de uma invasão ou de uma guerra?
As pessoas que ocupam os cargos públicos podem ser certamente, boas ou más eventualmente. Mas se o sistema for mau - e/ou for corrompido ou distorcido - todos os esforços serão constantemente maus, corrompidos distorcidos e quixotescos. “A corrupção dos ótimos, é sempre péssima” sentenciavam os latinos.
Johann Moritz RUGENDAS (1802-1858)- COLÔNIA SUIÇA  desenho 22.4 X 31.5 cm –in  LIMA fl 110
Fig. 02 – Por mais que os esforçados suíços tentassem se fixarem numa floresta tropical, eles eram devorados por uma terra e um clima completamente diferente de sua origem. Porém a origem do fracasso estava no sistema colonial e servil brasileiro que os cantões tinham ultrapassado e definitivamente enterrado sob a ação lendária de Guilherme.. No Brasil eles não passavam de mais um “QUILOMBO BRANCO” no mato tropical e um quisto politico, econômico e social incômodo ao  sistema colonial.

A calamidade latente - em novembro de 1815 – é o sistema subliminar do colonialismo requentado e a vigência da servidão voluntária, ou imposta, em novembro de 2015, por eficiente arsenal numérico digital. Esta servidão e este colonialismo criam o cenário perfeito e completo para o texto do:
CORREIO BRAZILIENSE – Novembro de 1815 VOL. XV. Nº. 90. 4 N  Miscellanea pp. 629 - 634.  Reflexõens sobre as Novidades deste Mez. BRAZIL.

No nosso N°. passado fizemos algumas observaçoens, sobre as finanças do Brazil, que se deduziam naturalmente do projecto sobre o melhoramento das Rendas Publicas, e Contas de Receita e Despeza do Brazil, que demos com alguma exactidao. O Leitor nos desculpará, sem duvida, o tornar a fallar n'esta matéria, sempre que reüicta na sua grande importância. Tem sido sempre a nossa opinião, n'este objecto, que, para haver unidade de operaçoens, se requeria a unidade do Erário; isto he, devia haver uma só administração de Finanças, posto que distribuída em varias repartiçoens. 
Fig. 03 – Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782)  - Marques de Pombal -encarnou a figura lusitana do “EU SOU O ESTADO” no cargo de  1º  Ministro de Dom José I. A sua figura e pessoa marcou o apogeu  monocrática e centralista. Neste papel  encarnou  a tentativa portuguesa de ingresso na lógica da ERA INDUSTRIAL. Porém restava-lhe uma sociedade e uma economia sem a menor disposição em dar este passo ruma a uma mudança substancial no modo de pensar e agir. Porém a esta ação do Marquês sobreveio o dilúvio da “VIRADEIRA” refugiada sob o trono e o manto da rainha Maria I. Ao longo desta “VIRADEIRA” a economia do  Brasil teve a proibição de qualquer indústria pelo alvará real de 1785.

Quando o Marquez de Pombal reduzio a systema o chãos, em que se achavam as finanças de Portugal, admittio plenamente o nosso principio, de fazer uma só administração do erário; conhecendo mui bem quam importante éra esta unidade, e quam perniciosas conseqüências se seguiam das administraçoens de almoxarifados separados, como até entaõ tinham existido. Mas o Marquez de Pombal julgou que convinha ás suas ideas de despotismo, fazer independentes as quatro repartiçoens on contadorias, em que distribuiu a Repartição do Erário; de maneira que, o Chefe de cada uma das Contadorias nunca po. desse saber os resultados geraes das outras três Contadorias; havendo simplesmente quatro pessoas, que sabiam o balanço  total do Erário; que eram o Escrivão, o Thesoureiro-Mor, o Marquez de Pombal, e El Rey. Nada seria tam fácil no Brazil, como estabelecer as differentes Contadorias nas diversas Capitanias do Brazil: e, ainda que se quizesse seguir o mesmo systema de segredo, este arranjo, longe de impedir, facilitaria o methodo de precaver as communicaçoens, entre uns Contadores e outros. Posto que nos reprovamos este systema de segredo, porque elle serve de encobrir as fraudes, e de causar desconfianças no publico, que saõ sempre contra o credito do Erário, e muitas vezes contra a reputação dos indivíduos, dando logar a calumnias, e imputaçoens, que, ainda mesmo quando injustas, se naõ podem justificar, nem refutar, continuando o systema de segredo.
Segundo a nossa opinião, da estabelecer as contadorias nas diversas Capitanias, he indispensavelmente necessário, que os livros de contas sejam escriptos em formulas impressas, para estabelecer a unidade de systema; e fazer intelligiveis os mappas geraes, que as Contadorias devem remetter ao Erário da Capital. 
Fig. 04 –  O mérito da  passagem lenta e progressiva do regime totalitário monárquico lusitano para um regime constitucional pode ser atribuído ao regente e depois rei Dom João VI. Regime constitucional que despertou e permitiu a progressão no Brasil de uma elite que conferiu e implementou outro paradigma econômico, jurídico e social qu buscava restabelecer as conexões com a sociedade civil organizada. Evidente que esta sociedade civil organizada excluía 99% da população que provinha dos hábitos do sistema colonial. Porém era um passo para a inclusão de outra categoria num governo monocrático e centralizado nas mãos da nobreza de sangue.

A consideração mais importante, depois da escripturaçaõ dos livros, he o modo da cobrança dos direitos, e do pagamento das despezas. Isto parece-nos que se podia fazer com toda a facilidade, sacando o Erário letras sobre as Contadorias, qne tivessem menos a pagar do que a receber; ou recebendo dellas letras no caso opposto. 
Johann Moritz RUGENDAS (1802-1858)[1]: vista do Rio de Janeiro a partir da Igreja São
Fig. 05 –  Um apanhado da visual da população do Rio de Janeiro na passagem do regime colonial para a soberania brasileira.  É  expressiva a presença militar e eclesiástica que eram classes sustentadas e base do poder monocrático e centralista do regime colonial e escravocrata. Outra categoria social e aquela dos mercadores que vendiam produtos importados viam marinheiros. Raros e isolados são os indivíduos que exercem uma atividade manual o que carregam algum peso com as mãos além dos brinquedos infantis.

He verdade que a falta de Banqueiros, no Brazil, embaraçaria ao principio estas operaçoens; mas, continuando a respeitar-se, como se deve, o credito do Banco do Rio-de-Janeiro, elle acharia meios de fazer circular as letras do Erário, por meio de Negociantes, sem que dahi resultasse nenhum incommodo ao Governo, e sem que fosse necessária outra despeza, mais do que os lucros do juro, que produziria para o banco o dinheiro nelle depositado, para os pagamentos das despezas publicas. Nas differentes Capitanias poderia o Banco do Rio-de-Janeiro estabelecer os seus correspondentes, em cujas maõs se depositasse todo o dinheiro cobrado dos impostos, ficando o mesmo Banco responsável pela segurança da somma, negociando, entretanto, com ella, como bem lhe parecesse. Deste methodo se segue, a grande facilidade de se sacarem e pagarem as letras de umas Capitanias a outras, e de reduzir a mui poucos os escreventes, e officiaes das contadorias; porque quasi toda a escripturaçaõ viria a ser feita pelo Banco, ou por seus agentes. Parece-nos que os lucros do Banco, resultantes da circulaça5 do dinheiro publico depositado em suas maõs, seria suficiente compensação, pelo trabalho e despezas da escripturaçaõ; e quando naõ fosse; o credito que deste deposito resulta ao Banco, juncto com alguma remuneração pecuniária, ou algum privilegio, que naõ fosse oneroso aos demais cidadãos, seriam motivos mais que bastantes, para induzir o Banco a tomar sobre si este trabalho; obrando, para assim dizer, como Caixa do Governo.
Johann Moritz RUGENDAS (1802-1858): colheita de café no Rio de Janeiro
Fig. 06 –  Os arredores do  Rio de Janeiro foi o ponto de partida da plantação, colheita e beneficiamento rudimentar do café. O seu cultivo iniciou com mudas contrabandeadas da Guiana Francesa. A sua exploração como monocultura avançou pelo Vale do Paraíba, gerando os “BARÔES do CAFÈ” com seus feudos rendosos que alavancaram a transformação da cidade de São Paulo como rival do Rio de Janeiro. O regime republicano foi proclamado outra oligarquia concorrente dos produtores do café e não nobres que espalhou no interior paulista e com um forte núcleo econômico, político e social centralizado em Itú.

 Quando propomos uma compensação ao Banco por este trabalho, suppomos, absolutamente, que os ajustes sejam feitos com a publicidade necessária, para evitar as combinaçoens, fraudes, e incommodos públicos, de que todos os monopólios saõ susceptíveis, como a experiência tem amplamente mostrado, no chamado Contracto do Tabacco, e outras similhantes fontes da miséria publica de Portugal. Anda traduzida em Portuguez a Historia do Banco de Inglaterra; a ella referimos o Leitor, como a exemplo digno de imitação; e ali se poderão achar os fundamentos, em que se apoiam as ideas que temos snggerido: porquanto, naõ basta adoptar um bom systema; he, também, preciso naõ destruir a sua bondade pelo máo modo da execução. Assim, ainda que o Governo se valesse do Banco do Brazil, para as operaçoens que temos indicado, viria a perder as vantagens, que meditamos, se as comprasse á custa de remuneraçoens pezadas ao Erário Regio, ou privilégios de sua natureza odiosos á nação, ou honras gratuitas aos Banqueiros, que ficam muito além dos seus serviços, como Negociantes, e que, portanto, vilipendiam as dignidades, e ridiculizam o indivíduo, que as recebe sem as merecer, pela natureza do emprego em que se occupa
CORREIO BRAZILIENSE – Novembro de 1815 VOL. XV. Nº. 90.p. 595
Fig. 07 –  Na pauta de exportações brasileiras para Londres o café constava, em novembro de 1815, como procedente da província do Rio de Janeiro. Evidente é uma pauta tímida diante do agro negocio brasileiro de novembro de 2015. Porém são produtos primários agrícolas e alguns poucos “commodities” que entram como insumos para uma era industrial que havia sido proibida no Brasil, em 1785,  pelo alvará de Dona Maria I. 
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Naõ compete, seguramente, a uma obra da natureza deste  periódico, entrar na exposição miúda de todas as partes do systema de finanças que recommendamos, por ser incompatível com os limites do nosso papel: porém, a recapitulaçaõ do que temos dicto se reduz a estes fáceis princípios—primeiro, estabelecer a unidade do Erário por meio de uma Administração Central na Corte, e nas Contadorias respectivas nas Capitanias, usando-se, em toda parte, de formulas impressas, tanto para as contas parciaes, como para os mappas dos resultados geraes; segundo, fazer as remessas de umas Capitanias a outras por meio de letras, e serem estas saccadas, acceites, e pagas pelo Banco do Brazil, e por seus correspondentes nas Capitanias. 
CORREIO BRAZILIENSE – Novembro de 1815 VOL. XV. Nº. 90.p. 649
Fig. 08 –  As reclamações  e os gastos ostentados pelas comunidades locais do território lusitano eram imensos. A nobreza local não tinha outro recurso a não ser esperar os recursos do trono do Estado monocrática, centralistas e provedor. No sentido contrário as portas das informações industriais dos livros,  jornais e das trocas comerciais estava gerando uma burguesia local que buscava e estava afinado com um outro contrato proveniente de regime constitucional. Sem recursos próprios este trono estava afundando cada vez mais em empréstimos com agiotas e com bancos que continuavam a hipotecar todas as potenciais e eventuais fontes econômicas lusitanas e das suas colônias.
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A personalização dos cargos e a reprodução dos hábitos monocráticos afetam e paralisam a ECONOMIA. Cada nobre criava a sua corte, seu feudo, os seus contratos e as suas leis próprias. O Estado lusitano monocrático e centralista estava carente de uma constituição nacional, portanto, na impossibilidade de um contrato. O que ligava a nobreza ao seu soberano eram vagas promessas de fidelidade. Porém longe da corte em terras estranhas estes laços eram facilmente ignorados, trocados por quimeras e permitiam toda sorte de procrastinações. Evidente que não havia nenhuma possibilidade de Economia ou controle de gastos e finanças nestas vagas promessas de fidelidade da nobreza ao seu soberano.
Embaixada para Roma.
Nunca suppozémos que a Corte do Brazil conseguiria fazer sahir de Londres o Conde de Funchal, com a expedição que no Rio-de. Janeiro se meditava: a experiência do passado, no modo porque elle se oppoz as Reaes ordens na administração dos Contractos Reaes, que pertencia aos Agentes do Banco, e em tantos outros exemplos, devia bem convencer os Ministros do Brazil de que, se o Principe Regente dá ordens em sua Corte, também o Conde de Funchal aqui governa a sua semana. O successor, que lhe nomearam, entrou no seu lugar em 12 de Abril passado; he decorrido Novembro, e as ordens de S. A. íi. ainda estaõ por executar. Depois disto, desejariamos ver a que se chama na Corte do Brazil desobediência ás ordens Regias, se um desprezo formal desta natureza passa sem que delle se tome conhecimento. Dizem-nos que, no tempo em que o Conde de Funchal esteve na Villa de Cheltenham, durante o verão passado, se divertira bastante na companhia de My Lord Strangford. Quanto ao divertimento, que S. Ex". teria, naõ duvidamos que lhe fosse mui agradável, por ser aquella terra urna daquellas em que, na Inglaterra, concorre mais companhia no tempo de verao, para se divertir; porém, quanto á utilidade, naõ julgamos que o seu amigo possa prestar-lhe protecçaõ bastante, para compensar os males que resultarão da demora, quando chegar o tempo do ajuste de contas. Salvo se, em conseqüência da boa harmonia, que reynava entre Lord Strangford e o Ministério do Rio-de-Janeiro, ao tempo da retirada daquelle Enviado, a Corte do Brazil ordenou ao Conde de Funchal, que lhe fizesse todos os cumprimentos públicos, que o Lord delle recebeo em Cheltenham.
Enquanto a legalidade da escravidão colonial brasileira estava sendo atacada por tratados, leis e medidas genéricas, na prática clandestinidade e os mecanismos práticos estavam se entranhando em hábitos tanto dos proprietários e gerações de escravos. Proprietários profunda e radicalmente dependentes do TRABALHO do OUTRO e que não podiam viver e ganhar o seu sustento com o trabalho de sua próprias mãos. Escravos que não podiam dispor do seu próprio corpo e não tinha menor oportunidade para deliberara e decidir sobre o seu presente e seu futuro. Esta dupla heteronomia era fatal para qualquer projeto de soberania política, econômica e social do Brasil. Nesta armadilha o escravo não se liberta a si mesmo como o seu proprietário esta impedido de libertar os seu escravo. 
Fig. 09 –  Uma cena do  COMÉRCIO HUMANO registrada pelo artista francês Jean Baptiste Debret mostra algo que estes europeus não podiam mais imaginar nos seus países e cultura de origem.  A ECONOMIA  BRASILEIRA estava alicerçada  nesta concorrência provinda de mão de obra escrava. Estes países tinham uma população cada vez mais instruída e exigente e cujo trabalho tinha de ser pago a altura destas aspirações. A abolição da escravidão foi um dos temas levados ao Congresso de Viena. Contraditoriamente o tráfego de escravos era uma das fontes mais promissoras dos armadores europeus cujos navios cobravam alto pedágio para cada cabeça escrava que podia entregar na América. Recebiam em dinheiro vivo.

Commercio da Escravatura.
A p. 570, deste N°. achará o Leitor acnunciaçaõ authentica do Tractado concluído em Vienna, sobre o Commercio da Escravatura do Brazil. Nos tínhamos já fallado sobre este negocio, em outros números do nosso Periódico, dizendo sempre o menos que podemos, pela dificuldade da matéria, e pela decidida opinião, em que estamos, de quam injusto he este commercio em carne humana, e de quam perniciosas saõ as suas consequencias para a prosperidade do Brazil: visto que, fiados os Braziüenses nesta factícia e estranha população dos negros, se descuidam de fomentar a população com pessoas infinitamente mais úteis do que jamais o podem ser os negros de África. Tocamos, porem, outra vez nesta matéria, simplesmente para notarmos a cláusula das 300,000 libras esterlinas que se estipulam no tractado, e que devem ser applicadas para pagamento dos indivíduos, cujos navios ou propriedade tivessem sido tomados em conseqüência de traficarem em escravartura. 
LIMA, Renata Azevedo. Conflito de Terra e Quilombos - Niterói: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas UFF – Dissertação  2013 - fl.131
 Fig. 10 –  O preço pago pelo escravo era uma das fontes mais promissoras dos armadores europeus. No Brasil lhes aguardava um mercado comprador com taxas e preços fixos.  Cada cabeça escrava era uma “peça” a ser negociada diante de cálculos de custos e lucros a auferir desta transação humana. Os negócios eram em dinheiro vivo. O prestígio vinha do número estas “peças”.
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Temos a segurança, de mui boa parte, de que aquella somma he suficientemente ampla para compensar todas as perdas, segundo a lista authentica das reclamações, apresentada por ordem da Corte do Rio de-Janeiro. Sem entrar na discussão minuciosa do modo por qne se obteve esta suficiente compensação, podemos, com tudo, dizer, sem receio de indiscrição, que he este outro exemplo do bom manejo das negociações em Vienna, da parte dos Plenipotenciarios Portuguezes. 
Fig. 11 –  O mérito das experiências das ondas imigrantes devia-se a crescente industrialização europeia e das sobras de mão de obra rural, arruinada pelas recentes guerras napoleônicas e das populações obrigadas a abandonar o obsoleto sistema feudal e de quem eram servos multisseculares. Porém os sucessivos fracassos das colônias destes deslocados de suas terras de origem mostrava que não bastava  um simples deslocar de atmosfera e terras. Assim foi um redondo fracasso a colônia suíça do Cantagalo com depois foi no Espírito Santo.

Em conclusão basta percorrer e dar uma atenção mínima aos noticiários e os fatos, de novembro de 2015, para encontrar as raízes latentes das calamidades de novembro de 1815. A permanência do sistema subliminar do requentado colonialismo e dos surtos da servidão voluntária ou imposta. Mudou a aparência e a forma. Esta servidão e este colonialismo criam o cenário perfeito e completo para os dias atuais. Agora fazem parte central e comandam o eficiente e atrativo arsenal numérico digital. E viva os espelhinhos eletrônicos: existem mais aparelhos celulares, no Brasil, em novembro de 2015, do que pessoas[1]!. Para as operadoras multinacionais, evidente, que “não existe almoço grátis”. Elas retornaram ao Brasil com toda força e carga sob outra aparência e forma.

FONTES NUMÉRICAS DIGITAIS da presente POSTAGEM.

CORREIO BRAZILIENSE – Novembro de 1815 VOL. XV. Nº. 90.

LIMA, Renata Azevedo. Conflito de Terra e Quilombos - Niterói: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas UFF – Dissertação  2013 140 fls
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terça-feira, 6 de outubro de 2015

126 – NÃO FOI NO GRITO

CARGOS e FUNÇÕES

em 1815 e em 2015

Em outubro de 2015 é possível evidenciar os mesmos hábitos, de outubro de 1815, para galgar cargos públicos ou privados sem o menor respeito por qualquer contrato que gerou este cargo.  A única lei é do personalismo,  do saque e uso de astúcias e poder que o cargo que caiu em mãos erradas. Personalismo que nutre um desprezo olímpico pelas funções ou limites sociais, políticos e econômicos derivados de  um contrato e da lei. O Correio Braziliense, de outubro de 1815, registra na p.544, este “quadro da dor” diante de personagens que ocupam
 “taes empregos assas remunerados com a promoção dos indivíduos de lugares menos rendosos para outros de maiores emolumentos, uma aposentaçao na velhice, algum distinctivo honorífico, pendrucalho d'habito ou cousa simiIhante, que lisongea a imaginação de grandeza, &c”   
Fig. 01 – O esforçado descendente italiano FRANCISCO BENTO MARIA TARGINI (1786-1827) galgou degrau em degrau os cargos públicos atingindo o grau nobiliárquico de 2º Visconde de São Lourenço. Partiu da iniciativa privada e pode ser visto como expressão do súdito e como cidadão a quem se abre a nobreza devido à sua dedicação, lealdade e boas relações com a nobreza já estabelecida e de berço. Porém em Portugal a nobreza não era hereditária e tinha de ser comprada. Os valores repassados - por estes sequiosos pelos títulos, medalhas e honraras de uma nobreza – alimentavam a  corte, suas extravagâncias e futilidades.

 A mistura eclética entre política e economia não é privilegio do Brasil de outubro de 2015., O mesmo eclactismo está presente em outubro de 1815, e se  faz soberano  nos registros das Finanças brasileiras. No Brasil de outubro de 2015 é alarmante a corrida para CARGOS PÚBLICOS. Alarma o adeus à legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência que pratica que a ECONOMIA privada e pública  conduzam pelo nariz a POLÍTICA de uma NAÇÃO. 
Fig. 02 – O Príncipe Regente -  depois Rei Dom João VI -  trilhou, durante sua vida, o caminho CONTRÁRIO do esforçado plebeu FRANCISCO BENTO MARIA TARGINI. O Príncipe, e depois Rei, nasceu no berço da família real que era considerada como fonte do poder. Ao ser coagido a jurar uma constituição para manter a coroa tinha esta fonte do poder foi refundada  em funções legais,   deixava de lado as fontes divinas da corte. Assim se aproximava da cidadania e da igualdade com os demais plebeus seus súditos

CORREIO BRAZILIENSE outubro de 1815 VOL. XV- Nº 89.pp. 544-549
Reflexoens sobre as Novidades deste Mez.
BRAZIL. Finanças.
A memória, sobre o rendimento e despezas do Erário do Brazil, cuja publicação começamos no nosso N° 86, e acabamos no passado, deve convencer os nossos Leitores, de que sem esforços extraordinários de gênio, sem a fertilidade de invençaõ, e sem maiores estudos nesta matéria de finanças, podiam os que conduzem os negócios da Fazenda Real, no Brazil, occurrer ás despezas ordinárias, naõ pedir empréstimos, c salvar o Governo de innumeraveis inconvenientes, que sempre resultam de se achar o Erário individado. A experiência infelizmente prova, que nem disto saõ capazes
Thomas ENDER – “No veleiro para o Brasil”
Fig. 03 – Os custos para equipar uma frota marítima lusitana, mantê-la e fazê-la operacional -  com capital próprio e autônomo -  sempre foram as maiores determinantes da política marítima de Portugal. Para o vacilante esforço nacional lusitano - para equipar uma frota marítima própria-  não valeu a origem italiana FRANCISCO BENTO MARIA TARGINI. Os Italianos venezianos e genoveses também haviam naufragado, há muito tempo nesta empresa apesar tomarem vultosos empréstimos florentinos.

A' frente do Erário do Rio-de-Janeiro se acha um Targini, que pelos outros nomes naõ perca; e ouvimos dizer, que he também Baraõ ou cousa que o valha; e suppomos, que saberá lêr, escrever, e contar; porque tem servido de escrevente nesta mesma repartição do Erário, aonde essas qualificaçoens saõ necessárias; porem que saiba mais cousa alguma, nem que tenha a menor pretençao a possuir os conhecimentos necessários de economia politica, essenciaes a quem deve arranjar os planos de finanças de um Estado, he falso testemunho, que ainda ninguém lhe levantou. Para ser escrevente ou contador, em qualquer repartição do Erário; basta, com um talento medíocre, o conhecimento practico da escripturaçaõ dos livros de contas, e os serviços, feitos em taes empregos, ficam asssas remunerados com a promoção dos indivíduos de lugares menos rendosos para outros de maiores emolumentos, uma aposentaçao na velhice, algum distinctivo honorífico, pendrucalho d'habito ou cousa simiIhante, que lisongea a imaginação de grandeza, &c. 
Fig. 04 –  O COMÉRCIO dos ESCRAVOS não podia  figurar  nas suas planilhas da contabilidade luso-brasileira. Contra este tabu - que tinha de ser mantido face aos britânicos - nem o esforçado  FRANCISCO BENTO MARIA TARGINI (1786-1827), nem Hipólito José da COSTA u qualquer cortesão tinha voz pública e eficaz. Muito mais tarde Wittgenstein  escreveu “o que não pode ser dito, deve ser calado”.
Porém nunca se pôde suppôr, que um mero contador, por melhor que saiba o seu officio, he sò por isso capaz de ser promovido á administração geral do ramo das Finanças, porque para isso he sempre necessário o conhecimento dos elementos de que se compõem a complicada sciencia da economia politica, taõ aperfeiçoada nos nossos tempos. Para provar isto basta lembrar, que pertence a este ramo do Governo a imposição dos direitos d'alfandega na importação dos gêneros estrangeiros, e que esta operação deve ser por tal maneira arranjada, que se favoreça a industria nacional, que se naõ obste o commercio, e que ao mesmo tempo se naõ provoque o contrabando, o que sempre resulta dos direitos de alfândega demasiado altos. Ora £ como se pode dizer, que he capaz de conhecer destas matérias, qualquer indivíduo, só porque sabe bem a practica da escripturaçaõ de um jogo de livros de contas no Erário? 
Fig. 05 –  A monetarização da ECONOMIA, do  COMÉRCIO e das FINANÇAS PUBLICAS LUSO-BRASILEIRAS estava em pleno curso de implantação em outubro de 1815. Porém no dia a dia a a população praticava o escambo por produtos, serviços e patrimônios eram correntes e sem registro em cartório ou bolsa de valores. O COMÉRCIO dos ESCRAVOS não constava como rubrica da contabilidade luso-brasileira. Nem  aí podia constar, devido  aos tratados oficiais com os britânicos. Porém a grande frota dos “TUMBEIROS” era britânica e tinham de serem pagos monetariamente, e no ato, por aqueles que fretavam estas embarcações, em Londres. Estas “modas” não deixavam rastros  como tráfico, as corrupções políticas e econômicas em pleno curso em outubro de 2015.

Este exemplo serve para mostrar, que o modo de escolher as pessoas, que dirijam os negócios da Fazenda, he radicalmente máo, e o Soberano ha de por força ser mal servido; por que só por accaso encontrará com um escrevente do Erário, que entenda (do que naõ he o seu officio) economia politica. Mas gritarão, aqui d'El Rey contra o Correio Braziliense; e argumentarão, que acima do Thesoureiro Mor está o Presidente do Erário, e para ajudar a este tem um Conselho da Fazenda. Vamos por partes: quanto aos gritos contra nós; teremos paciência; e tempo virá, em que o que escrevemos sirva de bem á terra em que nascemos; e esta lembrança naõ" he pequena consolação, para quem está ao abrigo de outros males, além desses gritos. 0 Presidente do Erário. Este importante emprego he, por via de regra, dado a um fidalgo. A economia politica, que estuda esta classe da naçaõ Portugueza, naõ deverá talvez ser avaliada, pelo que se observa na maior parte dos fidalgos, no que respeita a sua economia domestica; casas empenhadas, falta de credito, &c. &c, naÕ saÕ grandes recommendaçoens para louvar a economia domestica dos fidalgos. Mas em fim diraõ, que podem elles ou algum delles, ou a classe, geralmente faltando, serem máos economistas domésticos, e no entanto pode algum delles ter estudado economia politica, e ser capaz de administrar as Finanças do Estado. Seja assim, nós falíamos da classe, e por conseguinte devemos admittir excepçoens. Mas ¿ quando, e porque meio, ha de o Soberano conhecer quaes saÕ esses, que tem os estudos e o gênio necessário para administrar esta importante Repartição ? Por mais respeito, que tenhamos ao Soberano, ainda nos naõ capacitamos, que tenha um Espirito Sancto ao ouvido, que lhe ensine a advinhar. 
Jean-Baptiste DEBRET – “A corte no Brasil”
Fig. 06 – Os estranhos rituais da corte de Lisboa, transpostos aos trópicos, ensejavam cenas com o da imagem registrada por um artista europeu. Estes estranhos rituais associados aos abismos sociais, políticos e econômicos certamente afastavam qualquer contrato social que não fosse a ESCRAVIDÃO, o SERVILISMO ABJETO e o COLONIALISMO sob todas as formas..

Concedamos, por fim, que se acertou na escolha de achar o fidalgo sábio, nestas matérias  ¿quaes saõ os meios, que ha, de averiguar ao depois, se na sua administração se commettem abusos, provenientes ou de sua maldade, e intençoens criminosas, ou de sua culpa, e negligencia reprehensivel? Nos paizes em qne se escreve, e se falla livremente em publico, sobre as matérias de Estado, os talentos dos homens saõ facilmente conhecidos; e até quasi a opinião publica os designa para os lugares; mas em Portugal, aonde esse tal supposto fidalgo instruído, nem escreve as suas ideas, nem falia publicamente  ¿como se ha de saber, que elle tem os conhecimentos necessários para administrar as Finanças ? 
Fig. 07 – O prédio da alfândega do Rio de Janeiro materializava de um mínimo de controle financeiro. Este prédio ganhou sentido maior a partir da produção e exportação do café do vale do Paraíba

Também, nos paizes em que as contas do Erário saõ publicamente examinadas, he possível averiguar se o homem, que se julgou capaz do emprego, na verdade o naõ he, ou por falta dos conhecimentos, ou por falta de gênio, ou por falta de probidade; mas aonde os negócios do Erário saõ, como acontece em Portugal, mais escondidos que o segredo da abelha, he impossivel achar aonde ou em que individuo he o negocio deftectivo; o único critério he o resultado de ver o erário empenhado; isto ja pelo custume naõ serve de descrédito a quem preside; e assim vaõ as cousas de mal em peior, sem nenhum prospecto de remédio. 
Fig. 08 – O organograma governamental para coordenar a área econômica do Reino Unido – Portugal – Brasil - Algarves -  entre os anos de 18008 e 1819 reflete as desconexões administrativas desta área. Praticamente diversos governos sob um potencial governo e trono monocrático tradicional. Sem uma constituição proveniente de do PODER ORIGINÀRIO da nação pouco tinha a ver com esta origem. O esforçado FRANCISCO BENTO MARIA TARGINI pouco podia fazer sem a base da origem deste poder da nação e com uma corte de nobres que apenas buscavam os seus interesses pessoais. Apenas empresava o seu nome para  ser o culpado de tudo aquilo que desse errado neste cronograma.

O Conselho da Fazenda. Este tribunal numea servio, nem pode servir de ajudar o Presidente do Erário nos seus planos de finanças. As pessoas, de que he composto, saõ jurisconsultos, cujo estudo tem sido as leys, e tudo quando delles se pode e deve exigir, he que saibam sentenciar as causas, em que a Fazenda-Real lie parte ; e que tenham assas probidade e firmeza de character para dar a sentença contra El Rey, se a justiça assim o exigir; as qualidades, pois, requeridas para este officio, saõ mui differentes das que se precisam na administração dos negócios econômicos da Fazenda Real, ou finanças da naçaõ. 
Fig. 09 – Portugal e Brasil não careciam de nobres dedicados, em tempo integral, ao estudo, iniciativas e ações  Um deles era Antônio de ARAUJO e AZEREDO (1754-1817)  Conde da Barca. O redator do Correio Braziliense passa cuidadosamente à margem deste nome. As vinculações políticas e ideológicas com a cultura francesas e com a incipiente influência norte-americana eram motivos suficientes para silenciar este nome. Apesar disto os estudos, as pesquisas e os oportunos contatos sociais e culturais com o pensamento e os agentes das Ciências e das Artes do seu tempo trouxeram ao Brasil nomes, publicações e coleções científicas e estéticas que mereceram alguma atenção muito depois do seu desparecimento no Rio de Janeiro em 1817. Uma destas contribuições foi a sua coordenação da vinda da Missão Artística Francesa em 1816.   .

Isto fatiando cm geral: tractando agora de indivíduos; se éra condição sine qua non, que o Presidente do Erário do Rio.de-Janeiro fosse um fidalgo, dizemos que S. A. R. fez mui bem em escolher o Marquez d'Aguiar—passava por homem de conhecimentos e leitura, logo poder-se-hia presumir, ainda que naõ houvesse provas, de que teria estudado economia politica —gozava o character de probidade, tàl, que o punha acima de toda a suspeita—nus governos que fez de varias provincias mostrou bastante moderação.
Fig. 10 – O Brasil de 1815 já possuía,  em outubro de 1815,  três vezes o tamanho geográfico  do Império Romano no seu apogeu.. O Rio Grande do sul era uma espécie de apêndice deste imenso  território. Fruto de decididos avanços nas suas conquistas e recuos estratégicos frente à Coroa Espanhola. Em outubro de 1815 palco de manobras das forças que percebiam na rainha Dona Carlota Joaquina ter sob seu controle e anexação da Cisplatina na qualidade de filha da casa real espanhola. O atual estado e Santa Catarina era metade devido ao território do CONTESTADO pela Argentina e  equacionado só no período republicano,

 Bem; porém as suas outras oecupaçoens publicas, sua idade, suas moléstias, saõ um terrivel desconto a todas essas qualidades boas, que lhe desejamos admittir em toda a extensão possível. Sim j nos diraõ; mas basta que o Presidente do Erário só tenha a superintendência; e Ia está o Thesoureiro, que attenderâ a tudo o mais, supprindo as faltas e ausências do Presidente. Eís-nos aqui atirados outra vez para o Targini, ou Baraõ Targini, ou o que na verdade he; em uma palavra o tal escrevente do Erário, de quem nunca ouvimos uma só boa qualidade que o recommendasse; e que naõ faz mais do que inchar-se como pomba rola, ou pavaõ, com as honras, que ninguém sabe como lhe caíram em casa. O Leitor desejará saber, porque tractámos assim de chufa o Thesoureiro mor. Diremos—para nos pagar adiantado do mal que elle ha de dizer de nós, por lhe tocarmos no Erario. Naõ fatiaríamos nos indivíduos, se esperássemos, que se respondesse á memória que publicamos, mostrando ou que os dados em que se funda saÕ falsos, ou que as conclusoens naõ saõ legitimas; em uma palavra mostrando, que se a despeza excede a receita, todos os annos, no presente estado das cousas, he porque nem se pôde gastar menos, nem ter maiores rendas. Mas em vez de esperarmos, que o Targini responda, publicando as contas do Erário, de forma authentica, para justificar o estado de descrédito em que o tem posto, a experiência nos ensina, que naõ teremos outra resposta senaõ vituperios; assim he bem que vá ja recebendo alguma cousa á conta de pagamento. Olhando porém seriamente, para o modo porque se fazem as despezas, sem attender ainda á sua natureza, os defeitos da administração do Erário do Rio-de-Janeiro saõ bem notáveis. Demos um exemplo, na compra dos artigos necessários para os arsenaes, tropa, casa Real, &c. 
Jean-Baptiste DEBRET – “Intelectual estrangeiro no Brasil”
Fig. 11 – Os esforços de qualquer intelectual eram  perigosos para a mentalidade colonial e escravocrata. Assim foram implantados no Brasil Reino e Império apenas raros e poucos cursos superiores,  gravitando ao redor da corte no Rio de Janeiro. Na prática eram cursos profissionalizantes e em estado lastimável no final do período imperial brasileiro. A Universidade, para todo o território brasileiro,  teve de esperar o ano de 1931. Antes raras universidades locais se a atribuíam  título de universidades  e que Antõnio Cunha denominou de “temporãs”[1]

Em vez de se propor a lanços públicos, para se arrematar a quem por menos fornecer o artigo necessário, encarrega-se um indivíduo de fazer a compra; e fica & sua boa consciência o portar-se como homem de bem. Se quizer. Aqui em Inglaterra custumam muitos fabricantes, e mesmo officiaes de officios mechanicos, quando se lhe compram artigos para exportação, darem recibos por mais do que o preço, que recebem, e isto á vontade do comprador; chama-se a esta operação dar desconto.



[1] CUNHA, Luiz Antônio,  Universidade temporã : o ensino superior da Colônia à Era          Vargas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1980, 295p.

Fig. 12 – A expressão para  “INGLÊS VER” -  cunhada  com a chegada da corte ao Rio de Janeiro, em 1808 -  reflete o amontoado de casas do Rio de Janeiros - sem um projeto urbanístico.  Em outubro de 1815 era índice da falta dos limites entre o político, o econômico e o social e era visível de instalação de vidros nas janelas dos prédios. Este processo ganhou dimensões dantescas, em outubro de 2015,  com a progressão de favelas e de ocupações irregulares insanáveis apesar de todos os esforços, boa vontade e fortunas e vidas humanas despejadas neste ralo.

Agora, mandando-se de Brazil comprar em Inglaterra muitos artigos por conta do Erário, tomáramos que nos dissessem como averiguam lá, que os recibos que de cá se mandarem, se he mesmo que alguns recibos se mandam, designam as sommas verdadeiramente pagas por conta do Erário, ou se incluem também o desconto ¿ e que proporção he o tal desconto ? Nesta matéria havemos a seu tempo fallar mais ao largo • mas aqui vem ao propósito, somente para mostrar, que o systema das arremataçoens em hasta publica, causando a competência publica entre os vendedores, habilitaria o Erário a comprar o mais barato possível, e fazendo-o no Rio-de-Janeiro por seus officiaes, podiam-se verificar tanto os preços, como a bondade dos artigos, de maneira que naõ he practicavel, quando as compras se fazem em outros paizes distantes, e sem a con. currencia dos lauços. He verdade, que as compras saõ ordenadas por varias repartiçoens, no que naõ tem muitas vezes parte alguma o thesoureiro mor do Erário. 
Jean-Baptiste DEBRET – “Rua no Rio de Janeiro - Brasil”
Fig. 13 – O observador mais desavisado podia ser testemunha em qualquer rua, pátio ou lugar público dos contrastes e os abismos sociais, econômicos e políticos.   Estes índices eram camuflados por uma sequência estonteante de  eventos, festas e procissões que naturalmente tinham por figura central as autoridades coloniais que  assim podiam ostentar a sua “magnanimidade e majestade”. Eventos, festas e procissões que passavam longe de qualquer manifestação política.

Porém occupe aquelle lugar um homem capaz, e elle conhecerá, que he do seu dever o propor o plano para as compras dos artigos necessários, nas diversas repartiçoens, de maneira que se introduza em todas um systema uniforme; isto he sem duvida da repartição das Finanças; posto que o naõ seja de nenhum contador ou escrevente do Erário. Ajunctou-se á este plano do melhoramento das finanças varias tabellas, que póem a matéria em um ponto de vista mui claro, e serrem como de resumo de todo o plano. 
Fig. 14 – No território metropolitano o prédio da alfândega da cidade do Porto, as riquezas que por ali circulavam. Porém muitas das vinhas e lagares eram de propriedade britânica que graças ao Tratado de Methuen[1], em 1703, instalou ali guarnições inglesas para “defender” os seus interesses econômicos. Assim Portugal não tinha uma contabilidade nacional. O Correio Braziliense, de outubro de 1815, também contornou este contencioso com a Inglaterra e que levou para Londres todo o ouro das Minas Gerais.

Na tabeliã Ia. (p. 373) se acham as particularidades das despezas de um mez, nas repartiçoens A, B, C, D, E: e na tabeliã 2\ (p. 374) os rendimentos de um anno, distinguindo as capitanias d'onde vem, e as repartiçoens por onde se cobram. Depois (p. 375, e p. 376) vem a conta das despezas distribuidas por cada mez; e na tabeliã seguinte (p. 377) se acham os meios de prover a estas despezas, também mensalmente, fundando.se o cálculo na tabeliã 2a. E finalmente; porque a má administração passada tem feito com que as cobranças do Erário se verifiquem sempre depois de vencidos os termos dos pagamentos, que devem sahir do Erário; vai a tabeliã de p. 380, mostrando os sacrifícios de descontos, que he preciso que o Erário faça, para fazer os pagamentos no devido tempo; c ficar para o futuro com sobras; adquirindo assim o credito de punctual. Esta matéria nos parece taõ clara, taõ fácil de execução, e taõ evidentemente útil; que o naõ a quererem seguir no Erário, naõ pode deixar de motivar suspeitas de más intençoens, vista a continuação do péssimo systema de ter sempre o Erário individado. Sendo o arranjamento do Erário tal, que se houvesse sempre o dinheiro necessário pára fazer os pagamentos, naõ seria preciso outra precedência senaõ em chamar os indivíduos pelos seus nomes, segundo estivessem classificados nos livros, pelas letras do A, B, C ; e cada um esperaria com paciência, que lhe chegasse a soa vez. Mas esta simplicidade de administração he o que naõ serve aos Godoyanos • porque nas águas envoltas se pescam as enguias. Naquelle systema simples de pagamentos, de escripturaçaõ, e de precedência fundada unicamente nas datas, e na ordem alphabetica; naõ podia haver lugar de empenhos; faltando este meio, cessavam os rebates dos que compram as dividas do Erário por menos do que valem; porque tem empenhos para as cobrar logo, e embolçar o rebate; pagando o Etário a divida por inteiro; e ficando o credor originário privado do desconto, que soffreo.



[1] Texto do Tratado de METHUEN em https://pt.wikipedia.org/wiki/Tratado_de_Methuen
Fig. 15 – A cena dos esforçados carregadores de Piano No Rio de Janeiro -  registrada com hilaridade por Auguste François BIARD (1798-1882)  - é uma amostra dos abismo da classe privilegiada e dona do piano e que coloca todo o peso sobre s cabeças dos  escravos  o peso deste instrumento de distinção. Certamente não havia com registrar, em qualquer estatística ou relatório econômico, o produto deste trabalho.

A comparação entre a política e a economia britânica de outubro de 1815 e  de outubro de 2015 com a política e a economia Brasil e de Portugal de outubro de 1815 certamente é injusta. Porém convém atualizar o reparos em relação a veemência jornalística  de Hipólito José da Costa e sua situação em outubro de 2015. No presente continuam os mesmos hábitos de galgar os cargos públicos ou privados sem o menor respeito por qualquer contrato e com um desprezo olímpico pelas funções ou limites sociais, políticos e econômicos derivados de  um contrato e da lei que gerou este cargo. A única lei é do personalismo,  do saque e uso de astúcias e poder que o cargo que caiu em mãos erradas.
Fig. 16 – As bases econômicas, sociais e políticas do mundo do COMMONWEALTH estavam em plena formação em outubro de 1815. Com a consolidação e a expansão da era industrial  o império britânico compensou amplamente a perda da joia da sua coroa que eram os Estado Unidos.  O editor do Correio Braziliense tinha vivido e trabalhado nos Estados Unidos. Porem os seus esforços eram para que o Reino Lusitano mantivesse sua unidade com o Brasil.

O sonho do editor do Correio Braziliense, em outubro de 1815, era caminhar na direção de um mundo lusitano unido. Enfileirar-se e acompanhar o Commonwealth britânico em construção e que tantos benefícios trouxeram aos seus mentores em todo planeta entre 1815 e 2015. 
Fig. 17 – Os vastos territórios do Reino Unido – Portugal, Brasil Algarves era um bem a ser preservado para posteridade. Porém tudo isto era idealismo e ficção. Ficção sem um projeto político digno deste nome. Idealismo imediatamente desmentido por, um centralismo mórbido lusitano e europeu. No lado prático a falta de uma economia sustentável - a partir, de uma pesquisa e de indústria nacional – transformavam tudo em mera metafísica e discurso oco. De outro lado os tratados leoninos om a Inglaterra pulverizavam vontades, sentimentos e potencias conhecimentos.

Nesta perspectiva não lhe interessava a soberania brasileira isolada e desconectada do seu passado e presente lusitano. Evidente que o conflito ianque inglês estava bem vivo aos olhos de todos, em outubro de 1815,  e as duras guerras, saques, incêndios e sangue derramado . Esta direção de um mundo lusitano unido por um pacto político, social e econômico pacto não pode avançar para o mundo da sua prática. Militavam contra ele uma corte refugiada no Rio de Janeiro e cercada de mediadores, atravessadores e tuteladores de interesse pessoais e muito mais mesquinhos do que o projeto de um pacto ao estilo do Commonwealth britânico. Militavam contra ele os hábitos multisseculares de uma monarquia que estava em processo de migração entre o absolutismo e os contratos constitucionais. Enquanto isto os ingleses já haviam atingido há alguns séculos, em outubro de 1815, este patamar e contrato coletivo.
Fig. 18 – O embaraçoso panorama político brasileiro de outubro de 2015 possui uma matriz e uma atmosfera social e econômica que emana de outubro de 1815 A pouca nitidez entre as competências e os limites,  entre economia e a política, geram “as águas turvas nas quais se pescam as enguias”   Os grandes alardes, gritarias, processos e ameaças encobrem negócios outros, atravessadores experientes e falcatruas maiores do que aqueas que aparecem com aparente clareza cristalina ne mídia digital  para um povo que ainda está na escravidão e num colonialismo cada vez mais sofisticado.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS.

ALMEIDA PRADO, J. F. Tomas Ender. São Paulo: Melhoramentos, 1955. p.383.

CUNHA, Luiz Antônio,  Universidade temporã : o ensino superior da Colônia à Era          Vargas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1980, 295p.

TAUNAY, Afonso E. A missão artística de 1816. Rio de Janeiro: Revista MEC/SPHAN,  no18, 1956, 351p

FONTES NUMÉRICAS DIGITAIS

ALFÂNDEGA do RIO de JANEIRO em 1815

BRASIL  1815

BRASIL Finanças – essas secretarias - ministérios

COMÈRCIO do PAU-BRASIL e MINISTROS e CONSELHOAS a FAZENDA

COMMONWEALTH

CORREIO BRAZILIENSE outubro de 1815 VOL. XV- Nº 89

FRANCISCO BENTO MARIA TARGINI (1786-1827) 2º Visconde de São Lourenço

NEO COLONIALISMO

PORTUGAL +BRASIL  – SECRETÀRIOS e MINISTROS da FINANÇAS

PORTUGAL – FAZENDA
MINISTROS das FINANÇAS a partir de 1830

PROVÌNCIA CISPLATINA

REINO UNIDO PORTUGAL BRASIL E ALGARVES

RIO de JANEIRO no período de Dom João VI

Rio de Janeiro visto por Eduard HILDEBRANDT (1817-1868)

Rio de Janeiro visto por Thomas ENDER
TRATADO de METHUEN em 17.12.1703

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