sábado, 15 de outubro de 2011

NÃO FOI NO GRITO - 018

BRASIL em OUTUBRO de 1811.


PREPARANDO SILENCIOSAMENTE, e com RAZÃO, a
DERRUBADA dos PELOURINHOS LUSOS.
“Os Ministros do Brazil, bem longe de procurar saber o que os povos sentem, só tráctam de fazer com que os indivíduos naõ fallem, obrigando-os a que ocultem o seu modo de pensar; daqui se segue, que cada vez sabe o Governo menos dos males de que deve estar informado para os remediar; e o Soberano illudido com as falsas representaçoens de felicidade publica, a qual naõ existe, se expõem a ser victima da perfídia dos que o enganam.” CORREIO BRAZILIENSE nº 41 - outubro de 1811 p. 548


Fig. 01 – O Pelourinho ainda estava de pé no Rio de Janeiro em frente do Palácio e do Teatro quando o povo exigia o Juramento da Constituição, em 26 de fevereiro de 1821, registrada, depois, por Jean Baptiste Debret. Após esta data as narrativas e os registros visuais em relação a este Pelourinho deslizam para o silêncio narrativo e visual.
Antes, de mais nada, é necessário distinguir, ao longo do período colonial Brasileiro, o povo do seu Estado Português. O mesmo vale para atual do Estado Português e do povo integrado na Comunidade Européia. Estas distinções também são necessárias em relação às outras potencias européias coloniais e seus atuais Estados e povos.

O regime colonial de Portugal estabelecia os seus pelourinhos. Estes eram, além de um índice de sua presença, um instrumento de comunicação dos seus projetos num lugar público. De um lado funcionários despreparados viam neles a legitimidade do seu poder colonial. Legitimavam o exercício da sua autoridade por meio das suas funções das quais elas não percebiam as competências e os seus limites devido a sua meia cultura. Em contrapartida a população colonial jamais percebia neles um índice de um contrato que representasse este povo como um Poder Originário de uma distante nação lusa. Dois terços da população estavam submetidos ao instrumento legal da escravidão e analfabeta na sua maioria. Esta população via nestes funcionários, e nos seus pelourinhos, a origem de todos os seus males. Aqueles que usufruíam as benesses colônias apresentavam estes males como bens que a civilização lusa podia dispensar ao seu povo. Não faltavam, mesmo entre os cativos, aqueles que achavam que neste regime tinham um culpado de todas as suas desgraças, criminalidade, desleixos e falta de educação. Evidente que aqueles que se viam livres de trabalhar com as mãos, suar verter sangue e que usufruíam os resultados deste trabalho, achavam o seu paraíso neste regime servil.

Fig. 02 – O Pelourinho de Mariana - Minas Gerais
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Devido ao simbolismo desta peça pública destes pelourinhos evidente esta derrubada física e intencional seria visto como crime lesa Estado Colonial e punido com as penas as mais severas possíveis. Apesar disto, ou divido a isto, a derrubada dos pelourinhos coloniais lusitanos permaneceu um tabu nas narrativas históricas. Assim também qualquer narrativa foi mantida com o mesmo sigilo que um tabu simbólico ou físico mereceu.

Os Pelourinhos lusos, depois de derrubados em setembro de 1822, são vistos e interpretados no Brasil apenas como um instrumento para exercício do poder aversivo do Estado Colonial luso. Esta percepção era o lado visível da decadência e corrupção externa e interna de um Império.

O Correio Braziliense de outubro de 1811 no fornece um panorama e documentos pontuais desta decadência e corrupção externas e internas visíveis e invisíveis de um Império.

A nova nação que estava se formando jogava fora e perdia a casca obsoleta que um colonialismo em franca decomposição.
CORREIO BRAZILIENSE nº 41 - outubro de 1811 Miscellanea. p.542-548

Reflexoens sobre as novidades deste mez.

BRAZIL.


Ha muitos mezes a esta parte, que o artigo " Brazil" do nosso periódico, naõ contém outra cousa senaõ queixas contra o Governo daquelle paiz ; e represeataçõens em todas as formas possiveis, para que hajam de mudar o systema de administração ; naõ cessamos nem cessaremos de continuar nestes clamores ; porque estamos persuadidos de sua necessidade absoluta; e que sem se cuidar nesta reforma seriamente, tudo vai perdido no Brazil; e quem disser outra cottsa ao Principe Regente de Portugal, he um malvado Godoyano, que o quer ver precipitado, e se aquelle soberano der ouvidos a esta gente vai perdido, e há de conhecer o mal, quando nem elle, nem ninguem lhe poderá dar remédio.

Fig. 03 – O Ministro MANUEL de GODOY (1753-1820) colaborador dos franceses.

Retrato de Augusto Esteve e Marques (1753-1820)
Os Godoyanos, e seus sequazes, custumam responder-nos, ou negando-nos a verdade dos factos que referimos, ou gritando contra nós que os naõ devemos publicar; porque isso amotina o povo. Damos aqui agora dous documentos, em prova do estado de anarchia em que se acha o Brazil, contra cuja publicação nos naõ faraõ nenhuma das custumadas acusaçoens: naõ diraõ que o facto naõ he verdadeiro, porque o damos authentícado com a assignatura do mesmo Soberano ,- mencionando-se na carta Regia os multiplicados excessos de que nos temos queixado; nem poderaõ dizer que fazemos nós mal em publicallo, quando o mesmo soberano o mandou registrarem vários lugares, para constar da atrocidade dos crimes que se referem.

Fig. 04 –Nordeste Brasileiro em 1811 - Detalhe do mapa do Jean Babtiste Debret.

O Amazonas e os seus rios- que figuram neste mapa- tornam-se mais conhecidos, para cultura erudita lusitana, graças á expedição de Alexandre Rodrigues
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Estes documentos aqui se entregam ao publico, e aos vindouros, sem mais recommendaçaõ, que a de seu próprio merecimento; e ao depois disto - ¿quem se atreverá a negar-nos o estado de anarchia em que o Brazil, se acha? Dir-nos-haõ, que este exemplo prova também, que o Governo olha por estes males; pois as cartas regias, que aqui apresentamos, saõ de censura ao abuso do poder do Governador do Maranhão; c reparação ao damno dos offendidos: rnas será bom lembrar, que de tantos abomináveis despotismos daquelle Governador, he este o primeiro que o Governo do Brazil censura; aqui o opprimido he outro Governador, e ein um caso tal, e com taes circumstancias, que a mesma authoridade Regia éra iinincdiatamcnte insultada :

Fig. 05 – Lisboa sem Corte- Portugal
todos os mais desgraçados, perseguidos por aquelle Governador, nem saõ lembrados, nem suas fracas vozes podem ser ouvidas: alem disto; o tal Governador achase passeando em Lisboa, em sua liberdade, gozando dos fructos de sua maldade, a pezar de todas as cartas regias que se expediram a seu respeito; e ainda mesmo neste caso do outro Governador que se manda soltar, a carta Regia ordena, que se lhe tomem para ficar em deposito, ou se lhe entreguem sob fianças, o dinheiro, as joyas, ouro, e prata que elle tiver; e isto sem que se diga o crime porque; sem mencionar o processo judicial como isso se deva fazer,e obrando-se como obra o Gram Senhor cora os Buchas, que manda prender ;
vamos aos documentos:

Fig. 06 – Embarque ao Brasil da Corte de Dom João VI - Minas Gerais
Carta Regia para o Governo interino do Maranhão, mandando
soltar o ex governador da Capitania do Piauhi.

" Reverendo Bispo Amigo, e mais Governadores Interinos da Capitania do Maranhão. Eu o Principe Regente vos envio muito saudar. Constando na minha Real Presença, o desacertada, e estranho procedimento, practicado com o Governador da capitania do Piauhi Carlos Cezar Burlamaqui, pelo Governador e capitaõ-general que foi dessa capitania D. Jozé Thomas de Menezes, mandandoo suspender, prender, e seqüestrar em todos os seus bens; por mero arbitrio seu, e com manifesto excesso de jurisdicçaõ, e transgressão das minhas Reaes Ordens, sem primeiro me fazer saber os crimes que havia commettido, e esperar as minhas Reaes ordens, chegando a tamanho excesso o seu descomedido comportamento, que naõ só foi suspenso, prezo, e seqüestrado o dicto governador na própria casa do Governo, que lhe foi cercada com escolta militar. com grande escândalo dos povos daquella capitania, com grave offensa da immunidade, que elle devia esperar da authoridade, que eu lhe confiara, e com desmedido excesso de jurisdicçaõ ;

Fig. 07 – São Luis do Maranhão – Rua antiga
mas também affoitando-se o referido governador, e capitão general a nomear Provedor interino da minha Fazenda, e para juiz, e escrivão dessa illegitima deligencia a duas pessoas, que o não podiam ser, pela falta de authoridade de quem os nomeava, pela sua qualidade, estado, e inimizade com o governador; maioFmente havendo uni ouvidor naquella commarca, com seus officiaes respectivos; e a dar provisão, ou patente de governador interino, ao coronel de milícias Francisco da Costa Robello, sem ter para isto faculdade ; e desprezada a ordem de suecessaõ, que está por lev estabelecida, nos casos de- faltarem os governadores ; e querendo -remediar, do modo por hora possível, este desordenado acontecijuento, em quanto com pleno conhecimento de caiwa, aaõ njando castigar tom penas proporcionadas, todos os que fôrain reos o cúmplices destes criminosos excessos, e de outros, que com desprazer meu, e offensa da* minhas leys, e do socego dos povos, se tem há tempos multiplicado nessa capitania. Hey por bem ordenar-vos, que, assim que esta receberdes, mandeis logo soltar, e restituir á sus inteira liberdade, o mencionado governador Carlos Cezar Burlaroaqui, pagar-lhe todos os seus soldos vencidos, e entregar-lhe todos os bens c moveis de seu uso, que lhe foram seqüestrados; menos o dinheiro, joyas, e trastes de ouro e prata, que naõ forem do seu uso ordinário, que se conservarão em deposito, até nova determinação minha; e que so lhe serão entregues debaixo de fiança idônea, fazendo-Ihe saber que lhe hey por accabado o governo, por ter findo o tempo porque lhe foi concedido; e que deve prontptamente partir para esta capital, passando as convenientes ordens, para que, em quanto naõ chega o Governador, que eu houver por bem nomear, entrem no Governo do Piauhi os membros designados «a ordem de suecessaõ estabelecida no Alvará, que a regulou ; sáyam daquella capitania, e dos empregos que exercerem, todos os que foram nomeados pelo Governador e capitão general, para esta arbitraria e irregular diligencia, e os que estes elegeram ; substituindo- se pelos que serviam, e na sua falta por outros de conhecida, e notória aptidão. 0 que tudo cumprireis com o zelo que de vòs espero, dando-me logo contado que nesta conformidade houverdes practicado, remettendo todos os papeis e processos, que se tiverem formado á cerca deste negocio, e dos que lhe forem relativos, e mandando registrar esta nos livros das secretarias desse Governo, e do Piauhi, e nos das câmaras da cidade de S. Luiz do Maranhão, e Oeiras ; para que a todo o tempo conste quam desagradável me foi todo este acontecimento. Escripta no palácio do

Rio de Janeiro, aos oito de Março, de 1811.
PRÍNCIPE.

Fig. 08 – Mural - Maranhão
Para o Reverendo Bispo, e mais Governadores da Capitania do Maranhão.

Carla Regia, que manda restituir ao seu antigo emprego de Secretario do Governo do Piauhi, a Jozé Loureiro de Mesquita.

Reverendo Bispo, Amigo, e mais Governadores interines da capitania do Maranhão. Eu o Principe Regente vos envio muito saldar. Havendo-me representado Jozé Loureiro de Mesquita, secretario do Governo da capitania do Piauhi, que achando-s. nesta corte, mandado pelo Governador em deligencia do meu Real serviço, fora privado do seu emprego, na pessoa do official de secretaria, Sotero Cláudio da Silva, que ficara em seu lugar,nomeado pelo referido Governador, practicando este attentado um Miguel Jozé Ferreira, eleito provedor interino de minha Real fazenda, pelo Governador, e capitão general que foi dessa capitania D. Jozé Thomaz de Menezes; e o coronel de Milicias Francisco da Costa Robello, a quem se dera uma provisão ou patente de Governador, que passaram ao excesso de nomear um mancebo de dezeseis annos, e de tomar conta de todos os papeis da secretaria, mandando-os pôr era deposito particular apezar de quantos protestos se fizeram por parte do serventuário, acontecendo estes estranhos factos na occasiaõ em que aquelles referidos, provedor, e governador interino, e outros mandados pelo mencionado Governador, e capitão general foram com descomedido excesso, e transgressão das minhas Reaes ordens, suspender, prender, e seqüestrar o Governador daquella capitania, Carlos Cezar Burlamaqui, sem preceder expressa ordem minha, com manifesto excesso, e abuso de jurisdicçaõ, e escândalo dos povos-, e chegando também os mesmos illegitimos executores de ordens taõ contrarias á tranqüilidade publica, a seqüestrar os bens do mesmo secretario, pedindo-me providencias promptas, e capazes de reparar os males, que nasceram de taÕ estranho, e despótico procedimento. E tendo-se verificado na minha Real Presença os factos referidos, e querendo dar as providencias que ora cabem nas circumstancias, reservando-se para tempo opportuno, e depois de se fazerem as averiguaçoes necessárias, e com pleno conhecimento de causa, o impor o castigo proporcionado aos réos destes e outros delictos, que se provarem, e dar as mais providencias, que convierem ao meu Real serviço : sou servido ordenar-vos, que na conformidade do que vos determinei na carta Regia de oito do corrente practicasseis com todos os empregados nesta deligencia, e com os que elles nomearam, lanceis fora da secretaria o intruso secretario, e restituaes a ella o referido Jozé Loureiro de Mesquita: por si, ou na pessoa do nomeado ; fazendo tornar para o seu lugar os papeis, que com tanta precipitação, e violência, se tiraram dos archivos competentes; e mandeis outro sim entregar-lhe os bems inoveis do seu uso, e escravos, conservando-se somente em deposito, o dinheiro, joyas, c trastes de ouro, e prata, que naÕ foremdo uso ordinário, e se os ouver, até nova determinação minha, e que só lhe seraõ entregues prestando fiança idônea.

E curaprio assim. Escripta no Palácio do Rio-de-Janeiro, aos 9 de Março de 1811."

PRÍNCIPE.

"Para o Reverendo Bispo, e mais Governadores da Capitania do Maranhão."

Fig. 09 – O Pelourinho de Alcântara - Maranhão
O jornalista Hipólito José da Costa continua os seus comentários relativos a estes dois documentos oficiais cujo texto Correio Braziliense havia reproduzido
Naõ he, portanto, para aceusar a esse quidam D. Thomaz, nem a outro qualquer D. Farrupllhas, infunádo com suas fidalguias, ou authoridades, que apresentamos ao publico documentos desta natureza : a baixa educação, os vis sentimentos de indivíduos dessa qualidade, posto que sejam descendentes de famílias chamadas nobres, excita em nós sentimentos de taõ alto desprezo por suas pessoas, que naõ fariamos mais do que recommendar, que a maõ do algoz applicasse ignoniosos açoites, pelas ruas publicas, ao tal indingno D. Thomaz; ou, se o seu proceder he o resultado de mera loucura, o fechállo na casa dos orates; para evitar que naõ continue a offender os mais com seus desatinos. He sim o nosso motivo na exposição destes factos, o demonstrar, com exemplos aulhenticos, a necessidade de alterar o systema de Governo no Brazil; para salvar esse mesmo Governo dos males que o ameaçam, c, o que he mais importante, para fazer que os povos gozem da felicidade, a que os chama a bondade do seu território, e situação phisica.

Fig. 10 – O povo do Piauí – Afro- - Vaqueiro - Sertanejo
As cartas Regias, que aqui copiamos, servem somente de mostrar toda a enormidade do mal, sem lhe darem remédio, nem ao menos prometter, que o dariam para o futuro. Diz a carta Regia, que se reserva a dar o castigo, ao ex Governador, depois do conhecimento de causa; mas isso naõ quer dizer nada, quanto ao publico, posto que se se puzer em execução (o que duvidamos) será de conseqüência para os indivíduos. 0 caso reduz-se a estes simples termos : um Governador abuzou do poder que lhe foi confiado ; porque esse poder naõ era contrabalançado por alguma restricçaõ, ou freio, que o pudesse impedir de obrar mal ; retira-se esse Governador, e manda-se em seu lugar outro, justamente na mesma situação de poder abuzar do poder que lhe he confiado, sem que os opprimido tenham remédio algum legal, para se porem ao abrigo de suas injustiças.

Supponhamos ao ex governador Thomaz o menos culpado possível, nos despotismos que connuctteo, c supponhamos, que por ter enlouquecido obrou, o que fez; < naõ he possível que o seu successor enlouqueça também ? < E haõ os povos de estar sujeitos a soffrer as violências que um louco lhes quizer fazer, sem que lhe possam applicar nenhum remédio legal? Ainda que os Governadores fossem aodepois castigados, (o que ainda nunca aconteceo em Portugal, desde que nos entendemos) de que servem esses castigos aos offendidos, a quem se fizeram talvez males irremediáveis ?

Supponhamos que o Governador do Pará, que mandou affogar no rio as duas parteiras, fazendo-as lançar á agoa com pedras ao pescoço, era castigado por isso ; de que servia o seu castigo á. miseráveis parteiras depois de mortas ? Mas nem este, nem outro algum Governador he jamais castigado, porque pertencem a classe, que os protege ; ao ponto de os salvar sempre do rigor da justiça;principalmente se trazem dos governos abundante fructo de suas extorsoens.

Fig. 11 – O Pelourinho de Mariana - Minas Gerais
0 argumento de que nem todos os Governadores abusam de seus poderes, naõ prova nada contra a maldade do systema actual do Governo. O Governador que naõ abusa do seu poder he porque naõ quer; logo a elle individualmente pertence o merecimento ; de sua abstenção do mal; e ao systema de Governo, o ódio da possibilidade.

Nós dirigimos ao mesmo Soberano, ou ás pessoas que podem ter com elle influencia, a seguinte obvia reflexão. Se aquelle Governador do Maranhão se attreveo a fazer taõ manifesta violência, a outro Governador, que pela authoridade de seu cargo, pela graduação de sua pessoa, e por suas protecçoens na corte, tinha meios de se queixar, de representar, e fazer as despezas necessárias para manifestai- sua justiça, em lugar taõ remoto como he o Rio de Janeiro ; e ainda assim lhe mandaram reter em desposito parte de sua propriedade ; que justiça pôde esperar do Governador, um indivíduo obscuro, que naõ tem quem óre por clie, que naõ possue meios de ir á Corte fazer as suas representaçoens, e a quem o Governalor despotico reduz á miséria, á desesperaçaõ, e talvez á morte ?

Fig. 12 – Igreja da São Matias e Pelourinho de Alcântara - Maranhão
Lisongear-se-ha talvez a Corte do Rio-de-Janeiro de achar muitos homens, a quem nomear Governadores, os quaes naõ tenham paixoens, e estejam rodeados também de secretários, ajudantes d'ordens, e conselheiros todos igualmente impeccaveis? Se isto He uma hypothese impossível (-como podem os ministros do Brazil justificar- se para com o seu Soberano, -para com a sua naçaõ, e para com o mundo, de continuar no mesmo systema, depois de chegarem á sua noticia factos desta natureza _Concluímos rogando, outravez, ao Governo do Brazil, que olhe por estes males, em quanto he tempo. Mais ha que dizer nesta matéria ; mas temos dicto, quanto a prudência permitte que se diga. Estes avizos ao Governo do Brazil saã dados porquem sabe,mediante uma vasta e dispendiosa conrespondencia, o modo de pensar daquelle paiz. Os Ministros do Brazil, bem longe de procurar saber o que os povos sentem, só tráctam de fazer com que os indivíduos naõ fallem, obrigando-os a que ocultem o seu modo de pensar ; daqui se segue, que cada vez sabe o Governo menos dos males de que deve estar informado para os remediar; e o Soberano illudido com as falsas representaçoens de felicidade publica, a qual naõ existe, se expõem a ser victima da perfídia dos que o enganam.
- O que o poder originário desarmado e desamparado poderia planejar e realizar nestes cenários de abusos continuados?

Qualquer tipo de manifestação ou expressão autonomia popular, não sancionado por este poder discricionário seriam vistos e tratados como potenciais ameaça. Ou então interpretados como agressões concretas ao poder colonial.

Fig. 13 – O Pelourinho e a Igreja da São Matias de Alcântara - Maranhão
Derrubar os Pelourinhos lusos, em setembro de 1822, e escondê-los e fazer de tudo para esquecer a sua memória - atingiu apenas um instrumento perverso visível do exercício do poder aversivo do Estado colonial luso. Este ato de derrubar e esconder os instrumentos visíveis do poder colonial pode ser comparado ao criminoso que usa e depois esconde as armas dos seus delitos. Era muito mais profunda a causa desta decadência e corrupção da cultura, estado e civilização lusa no Brasil. A escravidão, o arbítrio, a concentração poder político passou para mãos talvez mais despreparadas e mais longe da compreensão do espírito do contrato civilizatório que o Império Luso construiu e manteve magnetizado durante três séculos.

Fig. 14 – DONA CARLOTA JOAQUINA de BOURBON -
Evidente que a derrubada dos pelourinhos lusos no Brasil esteve muito longe de ter sido uma ação orquestrada e planejada e executada em uníssono. Faltavam os modernos instrumentos de comunicação de massa. Nesta época o seu aparato visível estava apenas nas mãos dos antigos privilegiados pelo poder colonial decaído. Cada comunidade tomou as providências à maneira e em sintonia como expressão intuitiva do seu próprio pode originário. Este agia no hábito herdado e infundido pelo próprio luso na manutenção o seu império. Eles não o haviam construído e mantido no grito.

Fig. 15 – Transporte do Período de Dom João VI – Rio de Janeiro
Este fato não encontrou evidencias nas narrativas históricas brasileiras, pois se constitui em tabu. Este vazio narrativo não é só em relação ao pelourinho luso. Qualquer nação como Brasil, que se afirma civilizada, faz de tudo para manter a maior distância desta memória aversiva, mantida no esquecimento o mais absoluto e radical possível. O Brasil envergonhado e constrangido para abrir arquivos de suas épocas sombrias, teve de inventar e gerar outra memória. Somente no final do regime imperial gerou o “Grito do Ipiranga” e construiu uma narrativa alternativa da “derrubada dos pelourinhos”. Nisto o Brasil seguia a construção da narrativa historicista e heróica das demais nações Latino Americanas. No final do século XIX estas nações, aproveitavam a euforia da Belle Epoque, para escamotear e estetizar o tabu do assassinato dos seus pais ibéricos. Realizavam a construção desta nova memória por meio de narrativas heróicas dos escritores nacionalistas, da arquitetura de prédios suntuosos e de imagens historicistas ao gosto “pompier” dos pintores da Escola de Paris.

Fig. 16 – Capacete de bombeiro (pompier) do século XIX – Paris – França.- Inspiração de uma geração de pintores. Reparar no penacho vermelho – imitando fogo- saindo de um archote e uma esteira de fumaça preta imitada pelo penacho negro. Pedro Américo inspirou-se nos capacetes dos dragões numa variante deste capacete no seu quadro “Grito do Ipiranga”. Neste existe um dragão vomitando um penacho que corre da frente para trás.
Esta construção era orquestrada pela música, pela poesia e pelas artes cênicas. Elas fluíam nas ondas de profundas e subliminares ressonâncias de exaltações étnicas, sociais e estéticas e partindo de índices muitos estreitos e basicamente forjados pela indústria e comércio triunfantes.

Existe muita dificuldade para não ser arrastado pelos vestígios deste dilúvio de cultura e de comércio simbólico que flui torencialmente, age no âmbito todas as camadas da memória individual e coletiva e contaminando-a subliminarmente. De outra parte não há a menor tentativa de negar estes períodos de construção coletiva desta memória e muito menos o elogio a documentos de época. A leitura destes documentos é sempre realizada por uma consciência tributária de sua própria cultura e mundo.
FONTES NUMÉRICO DIGITAIS dos TEXTOS e IMAGENS


FUGA ao BRASIL



A CORTE de DOM JOÃO VI no BRASIL




GUERRA PENINSULAR – 1810-1811 - livros




MARANHÃO e PIAUI – História







O DRAMA da CUSTÓDIA



São Luis – MARANHÃO



LUSOFONIA



PORTUGAL e o MUNDO LUSO


Portugal 2011l

http://www.enciclopedia.com.pt/articles.php?article_id=195


GEOFF HUNT (1948 - ) – marinhista




ALVARÁ de DONA MARIA I em 05 de janeiro de 1785



PELOURINHO PORTUGUÊS


no BRASIL em

CURITIBA


ALCÂNTARA MARANHÃO – Pelourinho


MARIANA – Minas Gerias – Pelourinho



Rio de Janeiro



ACEITAÇÂO da CONSTITUIÇÂO em 1821 no RJ - DEBRET




PENAS LUSAS



ALEXANDRE RODRIGUES (1756-1815)



PINTURA POMPIER



Fig. 17 - ENQUANTO ISTO os INGLESES e os FRANCESES DIVIDEM O MUNDO
Parabéns

Uma matéria que merece todo o respeito e deveria ser lida por todos, a história dos pelourinhos se confunde com os tempos, e há ai também a sua  arte de edificá-la como as igrejas, o que confunde um pouco as mentes ,  pois fazer arte para o sacrifício com o símbolo da justiça (balança e  espada) e na frente de uma igreja ,um templo de Jesus é , no mínimo , um  contra-sensos, bem como a arte que acontece ou não hoje, esfregar um  cordeiro morto com sangue sobre uma tela comprida ou pendurar um  cachorro ainda vivo na parede , pode satisfazer os instintos mais  sádicos ,mas sem que o mesmo esteja pensando em arte. Hoje a práxis oxidou e esta esfarelada e o que importa é o sub-nitrato de pó de  m...(desculpa o termo),Não é mais preciso trabalho, hoje se vende idéias  e não vemos nada. Concordo que a livre expressão é valida por isto  existe ainda artistas. Mas ser artista hoje depende do “status quo”, da  conta bancaria e aqueles que ali não depositarem não sobrevivem. (Abri  uma conta no Banrisul para ver se era possível um patrocínio, até agora ,depois de um ano nem resposta) Assim como o comunismo um dia não deu  certo o capitalismo ha muito deixa a desejar em igual teor conteúdo e  forma.Hoje somos assombrados por uma "dita democracia"que deixaria  Bakunin dando risadas em seu caixão. Tenho a impressão que a América  Latina gosta mesmo de uma ditadura, pois, saímos de uma ditadura militar  e entramos em outra política, resta-nos fazer o balanço, porque o resto
é puro marketing.
Gostei muito do seu artigo, valeu e muito obrigado.
HENRIQUE RADOMSKY - escultor

domingo, 9 de outubro de 2011

NÃO FOI NO GRITO - 017

OUTUBRO de 1811

A SILENCIOSA FORÇA da SUBJETIVIDADE.

“Sendo patente a todos que a salvação do Estado, da qual depende a manutenção da nossa sagrada religião, a conservação do throno, e da Real Coroa do nosso legitimo soberano nestes seus dominios de Portugal, e de todos os interesses assim públicos, como individuaes, he sem duvida o objecto naõ só da maior importância, mas o único a que todos devemos fazer os mais promptos sacrifícios dos nossos bens, e da nossa própria existência” CORREIO BRAZILIENSE nº 41 - outubro de 1811 pp. 536-


Fig. 01. ENTRONIZAÇÂO de DOM JOÂO VI como 27º Rei de Portugal em 06 de fevereiro de 1818 no Rio de Janeiro, A EMOÇÂO do momento representado convoca todo o arsenal da lógica da RAZÃO. Estampa de Jean Baptiste Debret materializa numa imagem valores da íntima aliança entre a objetividade de seu REGIME e a subjetividade da RELIGIÂO. O registro desta imagem não está distante dos elementos visuais usados pelo pintor Louis David na cena de Coroação de Napoleão Bonaparte..

No início do século XIX figurou na ordem do dia a arregimentação das forças da subjetividade da Emoção contra a pretendida objetividade de Razão. Portugal ostentava a cultura dos valores subjetivos que mergulhavam no contrato de sua própria existência como nação e Estado soberano. Estes valores emergiram à luz do dia e ficaram expostos nas circunstâncias que a soberania lusa estava vivendo no mês de outubro de 1811. Um destes valores era a íntima aliança entre a objetividade de seu REGIME e a subjetividade da RELIGIÂO.

O Brasil também figurou no palco onde se representava a cena do confronto entre as “Luzes da RAZÃO e as Trevas MEDIEVAIS”. A “RAZÃO” logo após representar a sua cena foi surpreendida em pesado SONO. As “Trevas da Idade Medieval” ensaiaram a sua cena e ao sair das luzes da ribalta,colocaram em ação a EMOÇÃO com os encantos da subjetividade do Romantismo, a quem poucos resistiram.

Assim no palco estavam os atores representando o combate entre a objetividade e a subjetividade. Combate que se travava, no mundo empírico de 1811, entre a objetividade da nova era industrial e comercial contra as profundas tradições aceitas pela subjetividade e sem exame.


Fig. 02. COROAÇÂO de NAPOLEÂO BONAPARTE. A grande pintura de Louis DAVID materializa numa imagem o texto aqui tratado. A RAZÃO convoca todo o arsenal dos signos da EMOÇÂO dos sentimentos desta cena.. O pintor registrou a cena do dia 02 de dezembro de 1804 de Coroação de Napoleão realizada na Catedral de Notre Dame. Na figura anterior da estampa de Jean Baptiste Debret percebem-se elementos visuais usados nesta obra.

Todos se dizem de comum acordo que ali deveria predominar a Ciência, a impessoalidade e a objetividade racional nas relações sociais e políticas, inclusive nas estéticas. Contudo, logo após o 1º discurso, esta crença coletiva desanda em ações comandadas pela mais pura subjetividade. As forças da subjetividade emergem nas expressões, orbitam e ocupam o lugar da Ciência, da impessoalidade e da objetividade racional. Nesta subjetividade cultural, coletiva e individual agimos mais sob o impulso de questões que se encontram abaixo da nossa consciência explicita, racional e originária. A subjetividade continua extremamente ativa, sempre presente e emerge continuamente da mais profunda cultura recalcada no inconsciente individual e coletivo. Surgem fulgurações continuadas de expressões individuais próprias - que se querem permanentes e universais - nas circunstâncias do panorama geral a que assistimos.


http://tsofsilence.blogspot.com/2007/03/domingos-sequeira-domingos-antnio-de.html

Fig. 03. O GENERAL JUNOT PROTEGENDO LISBOA.por Domingos Antônio de SEQUEIRA 1768-1837 O agente da RAZÂO francesa da GRANDE REVOLUÇÂO colocando se no lugar do SANTOS e PADROEIROS MITOLÓGICOS. Este General acabaria a sua vida jogando-se de uma janela de prédio de Paris.

A toda ação corresponde uma reação igual e contrária. Na medida em que a humanidade agiu e trabalhou a favor da objetividade tanto mais se evidenciou a subjetividade. A cápsula da objetividade está se corroendo e rompendo para desespero dos profetas da linha de montagem. Isto apesar das promessas da era industrial que a construiu esta objetividade e que ela afirmava ser eterna e segura.


https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjNYRsyQBc6ozlM30qlvOAnBFUyG5HM1w6bpVrNij465lrvyLfLi9FgFHy7OKzw6re_Ixj8chGJFD5crrZajj_5UAAJDh1mjFAurGo7rYtjweiM8ifIwpcqd36CH6XIV5UFwOy_2CQZzhzp/s1600-h/convencao-de-sintra.jpg

Fig. 04. CONVENÇÂO de SINTRA. Os asturo ingleses abrem espaço de mercado para as sus indústrias num hábil jogo diplomático. . Havia pedido recentemente as suas 13 colônias norte-americanas, ma estavam levando ate as últimas consequência o seu Tratado de Methuen assinado com os lusos no longínquo 1703 http://pt.wikipedia.org/wiki/Tratado_de_Methuen

Certamente a RAZÃO é uma poderosa ferramenta. Como toda ferramenta possui o seu uso ótimo e o inadequado. Jean Paul Sarte descreve, na sua obra a Náusea, um aplicado leitor da biblioteca municipal. No vasto saber ali depositado, este leitor escolheu, como lógica do seu projeto da apropriação, ler os autores por ordem alfabética. No momento em que o autor o coloca este leitor estava na letra M..


Fig. 05. DUAS ÉPOCAS DUAS MENTALIODADES. O flagrante contraste entre a Rússia profunda e a RÙSSIA líder espacial - Spiegel 03.09.2011

As forças subjetivas não podem ser ignoradas na Pós-Modernidade. Elas tornam-se consideráveis e emergem continuadamente em todas as latitudes e culturas. Elas mostram as suas forças silenciosas no Centro Oeste Norte Americano como a Rússia profunda e a urbana estão retornando ao misticismo. Nos cenários das populações de fala árabe os fundamentalismos emergem e reivindicam o seu lugar público, sem falar daquele judeu.

Se retornarmos duzentos anos - para a Europa de 1811- teremos uma idéia do papel que os argumentos da subjetividade, após a paródia da instalação da deusa Razão na França,. Considera-se um texto disseminado em Portugal no palco na cena do confronto

CORREIO BRAZILIENSE nº 41 - outubro de 1811 pp. 536-538 POLÍTICA.

Documentos Officiaes relativos a Portugal

PORTUGAL-

O Excellentissimo e Reverendissimo Senhor Bispo

Patriarcha Eleito, foi servido mandar publicar a seguinte

PASTORAL.

Antonius Episcopus, Patriarcha Lisbonensis

Electus, Vicariusque Capitularis, &c. &c. &c.

A todas as Pessoas, que estas Nossas Letras virem. Saúde e Paz em o Senhor.

Sendo patente a todos que a salvação do Estado, da qual depende a manutenção da nossa sagrada religião, a conservação do throno, e da Real Coroa do nosso legitimo soberano nestes seus dominios de Portugal, e de todos os interesses assim públicos, como individuaes, he sem duvida o objecto naõ só da maior importância, mas o único a que todos devemos fazer os mais promptos sacrifícios dos nossos bens, e da nossa própria existência; e sendo necessária a manutenção do exercito, e de um exercito de tanto poder e força, que possa resistir aos repetidos esforços, que o commum inimigo incessantemente promove contra a nossa individual existência, e do Estado ;


http://pt.wikipedia.org/wiki/Tr%C3%AAs_de_Maio_de_1808_em_Madrid

Fig. 06 O FUZILAMENTO do 3 de MAIO. Pormenor do quadro de 1814 [2.68 x 3.47 m] de Francisco Goya de um acontecimento no qual um frade está entre as vítimas da RAZÂO

naõ podemos ver sem grande magoa do nosso coração, e de todos os fiéis vassallos de Sua Alteza Real, que o horroroso crime da deserção vá sempre progredindo, sem o poder conter, nem o rigor dos castigos, nem as sabias providencias, que repetidas vezes se tem dado: sendo ainda muito mais reprehensivel do que o mesmo crime da deserção a inaudita e escandalosa temeridade, com que muitas pessoas, calcando todas as leis divinas, e humanas se atrevem a fomentar a pérfida deserção, refugiando, e escondendo em suas próprias casas os desertores, quando deviam ser as que os exhortassem a voltar logo para o exercito, ou, quando não quizessem ir, os denunciassem.

E parecendo impossível, que entre uma naçaÕ tão religiosa, taõ fiel ao seu soberano, taõ amante da sua pátria, e que ja por taõ desgraçadas experiências tem conhecido qual seja a impiedade, o furor, e a crueldade do inimigo, que nos accommette, hajaõ pessoas, que concorraõ por malícia, ou olhem com differença, para as funestas conseqüências, que se devem seguir de se enfraquecer o exercito, quando estamos na mais urgente necessidade de o engrossar: considerando que este tão atroz e temerário procedimento será talvez effeito da falta de conhecimento da gravidade do delicto, e da rigorosa obrigação de se prestarem, por todos os meios possiveis, para a mais prompta, e efficaz defensa do Estado.


https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjNYRsyQBc6ozlM30qlvOAnBFUyG5HM1w6bpVrNij465lrvyLfLi9FgFHy7OKzw6re_Ixj8chGJFD5crrZajj_5UAAJDh1mjFAurGo7rYtjweiM8ifIwpcqd36CH6XIV5UFwOy_2CQZzhzp/s1600-h/convencao-de-sintra.jpg

Fig. 07. SOLDADOS FRANCESES. Vistos numa sátira britânica

Havemos por bem ordenar, e mandar com preceito de obediência, que todos os parochos á estação da missa conventual, e igualmente que todos os pregadores e confessores, nos púlpitos, e nos confessionários, façam conhecer aos povos que o crime da deserção em razão das actuaes circumstancias, e das mais funestas conseqüências, que delle resultaÕ, se pôde considerar como o mais grave de todos os peccados, por ser contra a religião, pela violação do jurameuto, e pela profanação dos templos, e dos altares, que se deve seguir da falta de defesa do reyno : pela infame perfídia, attentada contra o nosso legitimo Soberano, quando se atrevem a subtrahir-se a defeza e manutenção da Sua Real Coroa, á qual por outro juramento de vassalagem estamos obrigados: pela injustiça, com que deixaÕ de cooperar com os fiéis e honrados Portuguezes,que á face do inimigo, a custa do seu sangue, sustentaõ a pé firme os seus lugares; e finalmente pela responsabilidade, que tomaõ sobre si de todas as conseqüências da guerra; da invasão do paix; das profanações dos sanctuarios ; da violação das virgens; da oppressaõ das casadas • da morte dos innocentes; dos assassinatos; das fomes: das epidemias ; e da inundação de todos os males, de que naÕ podem ter ignorância; porque ja foraõ vistos, e experimentados.


Fig. 08. O CORTEJO do BATISMO da PRINCESA . On corte refugiada no Rio de Janeiro e com o registro do francês agente da RAZÂO

Mas em fim esse pequeno número dos Portuguezes, que inconsideradamente tem desertado, haõ de se arrepender, e haÕ de mostrar que saõ o que sempre foram. A deserção naõ tem sido por falta de brio, nem de valor; elles naõ hão de querer deixar de ter parte na gloria, que esperamos, e que só podem adquirir no campo da Batalha: elles vão ser instruídos na gravidade do delicto, e na obrigação, que tem por honra, e por consciência de o evitar. O infame monstro da deserção vai ser conhecido ; ha de fazer horror ; naõ ha de continuar. E se uma guerra prolongada pôde por algum tempo paralizar os ânimos de alguns, que inconsideradamente se deixaõ succumbir ao pezo dos incommodos, e dos trabalhos da Campanha, também os deve estimular a constância, e a fidelidade dos seus compatriotas, e o exemplo das tropas aluadas, que deixaram os seus próprios lares, e que vem sustentar o pezo da campanha em um paiz alheio, e taÕ remoto, que nem desertam para o seu, nem lhes he possível desertar.


http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Nicolas-Antoine_Taunay.jpg

Fig. 09. Nicolas-Antoine TAUNAY 1755-1830 Pormenor da “VISTA do OUTEIRO da GLÓRIA” RIO de JANEIRO. Óleo sobre tela – 1816 - Museu Nacional de Belas Artes

Por tanto mandamos que todos os parochos, pregadores, e confessores deste patriarchado na fôrma sobredicta procurem instruir, exhortar, e animar os povos por todos os princípios da honra, e da consciência á mais fiel e constante defesa do estado; e ordenamos que estas nossas letras sejaõ logo transmittidas na fôrma do costume a todas as pessoas, ás quaes a execução deüas haja de pertencer.

Dadas em Marvilla no palácio da nossa residência

sob nosso signal e sello, aos sete de Septembro, de 1811.

BISPO PATRIARCHA ELEITO, V- Capitular.

Lugar X do Sello.

Domingos Leite de Azevedo Rendo, Secretario.

Neste texto visível projeto, o contrato público e explicito da aliança entre Estado e Igreja que se confundem num todo inseparável. Este projeto e contrato público e explicito opunha-se aos argumentos da RAZÂO sustentados ao longo da recente da Revolução Francesa. Os exércitos desta potência estavam impondo em Portugal, de 1811, a sua RAZÂO via “manu militari”. Como se percebe no texto acima a resistência da Igreja às tropas de Napoleão foi explícita e combativa. Para esta resistência valeu-se do seu multissecular arsenal simbólico da recente Propaganda da Fé do Barroco, os tratados e os hábitos mais arraigados e longamente reforçado pelos terríveis instrumentos dos tribunais da Inquisição. Muitos, mesmo religiosos pagaram esta resistência com vida, como Goya registrou um frei tonsurado entre as vítimas da repressão armada francesa.


Fig. 10 - OS TESOUROS da IGREJA cobiçados pelos agentes da RAZÂO e amealhados com as contribuições EMOCIONAIS do Poder Originário.As minas de ouro do Brasil haviam irrigado direta e indiretamente este patrimônio físico e material e que alimentava a emoção da suntuosidade e luxo

Ao longo do 1º decênio de século XXI as erupções místicas e metafísicas de toda ordem estão emergindo por entre as ruínas da era industrial atingindo aposentados e os jovens sem trabalho. E não encontram respostas e sentido para si e para as bagagens que trazem, no futuro prometido onde estão desembarcando. A multidão, que não sabe quem ela é mesma e nem suporta si, a busca um líder como culpado de tudo. Líder que possa entregar ao carrasco como vítima e assim estabelecer o seu culto. Culto no qual possa dar livre curso às suas frustrações de não suportar a si mesma. Culto no qual tenha um álibi e um pretexto para prolongar indefinidamente a agonia do se líder nas mãos do carrasco. Agonia na qual possa arrastar este estado patológico pelos séculos afora e, assim, legitimar todo tipo de prática de crueldade consigo e com os outros.


Fig. 11. IGREJA em ROPRIEDADE INDIVIDUAL . Pormenor de uma gravura de Jean Baptiste Debret mostra a íntima relação entre o poder econômico e o suporte espiritual da Igreja.

O mineiro Guimarães Rosa encontrou, no seu vago filosofar, um ponto de equilíbrio homeostático entre as forças do espaço da objetividade como naquelas da subjetividade, ao escrever. 150 depois do texto aqui analisado, registrando:

“Querer o bem com demais força e de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal por principiar. Esses homens ! Todos puxavam o mundo para si, para concertar consertando. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo” .Guimarães Rosa 1963, p. 18..

A Universidade, como criação ocidental, sempre teve como projeto estabelecer a interação entre objetividade e subjetividade. O seu processo de estar no mundo teve dois movimentos opostos o 1º A Universidade pré-iluminista totalmente metafísica e comandada pela subjetividade e obediência. No 2º Universidade Iluminista inteiramente rompeu com a subjetividade metafísica medieval entregue à objetividade da Ciência e materializada na era industrial. O positivismo.

A Pós-Modernidade não pode ignorar as forças subjetivas e o papel da Arte. A frágil casca da civilização - que se quer racional e objetiva - necessita contemplar objetivamente as consideráveis forças da subjetividade que emergem continuadamente em todas as latitudes e culturas. As forças silenciosas da subjetividade que possuem endereços como Centro Oeste Norte Americano como a Rússia profunda e a urbana ou estão dispersas na atmosfera cultural formada pela rede mundial. Cenários sem medida nem profundidade como a cultura das populações de fala árabe sem falar daquele judeu. Fundamentalismos emergem e reivindicam o seu lugar público criam formas definidas para logo a seguir atomizar-se em nuvens das mais diversos tipos de formações e configurações estranha.


Fig. 12 - . TIMOR LESTE MUNUMENTO e PELOURINHO LUSO. . Confundem-se num mesmo monumento o pelourinho do Estado Luso e a imagem sagrada.

ENTRONIZAÇÃO de DOM JOÃO VI

http://digitalgallery.nypl.org/nypldigital/dgkeysearchdetail.cfm?trg=1&strucID=569879&imageID=1224163&total=164&num=120&word=debret&s=1&notword=&d=&c=&f=&k=0&lWord=&lField=&sScope=&sLevel=&sLabel=&imgs=20&pos=138&e=w

PROPRIEDADE RURAL e IGREJA - Debret

http://digitalgallery.nypl.org/nypldigital/dgkeysearchdetail.cfm?trg=1&strucID=569896&imageID=1224169&total=164&num=140&word=debret&s=1&notword=&d=&c=&f=&k=0&lWord=&lField=&sScope=&sLevel=&sLabel=&imgs=20&pos=144&e=w

ACEITAÇÂO da CONSTITUIÇÂO em 1821 no RJ - DEBRET

http://digitalgallery.nypl.org/nypldigital/dgkeysearchdetail.cfm?trg=1&strucID=569902&imageID=1224171&total=164&num=140&word=debret&s=1&notword=&d=&c=&f=&k=0&lWord=&lField=&sScope=&sLevel=&sLabel=&imgs=20&pos=146&e=w

DETROIT – Ruinas industriais – NYT 21.08.2011

http://www.nytimes.com/slideshow/2011/08/21/arts/design/08212011_DETROIT_SS.html

GUIMARÃES ROSA João. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro : José Olympio, 1963, 594 p..

INQUISIÇÃO

http://pt.wikipedia.org/wiki/Inquisi%C3%A7%C3%A3o

PINTORES POMPIER

http://es.wikipedia.org/wiki/Art_pompier


http://pt.wikipedia.org/wiki/Safo http://www.nytimes.com/slideshow/2011/09/29/arts/design/20110930-LOUVRE-11.html

Fig. 13 - THÉODORE CHASSÉRIEAU 1819-1856 - A Morte de Sapho. O pintor nascido na ilha Dominicana expressa a subjetividade atingida pelo destino seu de morre jovem .

Desenho sob a guarda do Museu do LOUVRE