sábado, 10 de junho de 2017

152 - NÃO FOI NO GRITO


Em JUNHO de 1817 o GOVERNO foi enfraquecido pelos ABUSOS para enfrentar a REVOLUÇÃO em PERNAMBUCO e manter MONTEVIDEU como o é, em 2017, para se MANTER em PÉ.
 “O Governador se achou, pela série de abusos, que sempre trazem os governos ao desprezo, sem ter nem forças físicas nem morais, com que fizesse obedecer á sua autoridade. ” Correio Braziliense junho 1817p.673.
Fig. 01 –  O regime colonial jogou a pesada máquina militar  sobre a capitania de Pernambuco fazendo sentir  toda a dominação monocrática  lusitana. Maquina militar desproporcional comparada ao poder civil. Este  poder civil evidentemente excluía liminarmente toda a população escrava

A Revolução de 1817 - que eclodiu e foi abafada em 1817 no Recife -   é mais um forte e decisivo índice de que a conquista da soberania brasileira NÃO foi realizada,  em 1822, NO GRITO do IPIRANGA e nem foi algo territorialmente pontual ou veio de um único sujeito num dado momento. Este momento, se o houve, foi longamente preparado e a sua sustentação, no TEMPO, foi paga por alto preço, por uma mobilização massiva e uma atenção continuada em relação às recaídas no COLONIALISMO
 

Fig. 02 –  A treinada máquina militar não demorou em reconduzir a capitania de Pernambuco ao regime colonial e esmagar os idealistas em sacudir o jugo da a dominação monocrática  lusitana. Capitania militar que excluía liminarmente tanto a rala e frágil população civil não alinhada com o sistema de exploração. Neste sistema de exploração os escravos eram meras “PEÇAS PRODUTIVAS” no lugar das máquinas e da indústria proibida no Brasil pelo Alvará se Dona Maria de 05 de janeiro de 1785

Numa colônia de longa tradição de dominação militar e de altos investimentos em rosários de fortalezas e dispondo de uma máquina administrativa nas mãos militares e sendo mantido e subsidiado por uma elite econômica com respaldo de equipamentos e funcionalismo também de formação e obediência militar. A DENOMINAÇÃO de “CAPITANIAS”[1] denunciava a origem e o sentido desta máquina administrativa confiadas a militares de carreira.
CORBINIANO LINS  - Mural das REVOLUÇÕES de 1817-1824- 1848 RECIFE 1967
Fig. 03–  A obra mural do, ano de 1967, da autoria de José CORBINIANO LINS evoca a memória é de um ciclo de movimentos heroicos de afirmação do PODER ORIGINÀRIO BRASILEIRO. Esta obra evidentemente não é fotográfica e nem personaliza indivíduos como acontece na obra “O GRITO do IPIRANGA” do pintor Pedro AMÉRICO. No entanto o mural de CORBINIANO LINS exalta o PODER ORIGINÀRIO que tornou possível a proclamação, a construção e a manutenção da SOBERANIA BRASILEIRA, até os dias atuais.


CORREIO BRAZILIENSE –junho de 1817 VOL. XVIIL Nº. 109, pp.672- 680.
Reflexoens sobre as novidades deste mez.
REYNO UNIDO DE PORTUGAL BRAZIL E ALGARVES.
Revolução de Pernambuco.

A anxiedade, que sentimos, ao momento em que publicamos o nosso N°. passado, tendo acabado de receber as noticias vagas e indeterminadas, sobre o levantamento de Pernambuco; se tem em grande parte diminuído; por termos podido de algum modo aves riguar a extençaõ do mal; com os numerosos documentos, que nos chegaram á maõ, depois da nossa ultima publicação. E sabemos que a insurreição se limita a Pernambuco, Paraiba, e Rio Grande do Norte.
Fig. 04 –  A bucólica paisagem nordestina da capitania de Pernambuco escondia horrores sem fim.   O  poder civil excluía liminarmente toda a população escrava. Assim qualquer PODER ORIGINÀRIO brasileiro  era uma ficção e apenas passava por algumas mentes iluminadas e nas horas em que mais pesava o jugo monocrático colonial e monocrático 

 Este successo em Pernambuco, he de muito maior importância em suas conseqüências, do que na sua actual extençaõ; e por isso julgamos mui conveniente publicar juncto tudo quanto tem transpirado a este respeito; porque assim daremos a nossos Leitores os meios de fazerem o seu juizo sobre os acontecimentos, e sobre suas causas. Em duas cartas qae se publicaram nas gazetas lnglezas, assignadas—" Um Braziliano estabelecido em Londres"—se insiste muito em que naõ ha no Brazil causas de descontentamento Nós deixamos copiada neste No a p. 646 uma destas cartas; e ao diante faltaremos delia; mas aqui diremos, contra a opinião daquelle escriptor; que lia em todo o Brazil muita causa para descontentamento; e que se o Governo naõ attender a isso com um remédio radical, quer subjugue quer naõ a presente insurrecçaõ em Pernambuco, continuará a ficar na bordado precipício. Isto saõ verdades amargas, mas naõ he com lisonjas que se induzem os Governos a obrar com acerto. A p 659 damos uma narrativa dos suecessos de Pernambuco, escripta por um sugeito, que de Ia chegou; e naõ só pelo que elle ali escreve, mas por suas declaraçoens verbaes, sabemos, que he decidido inimigo do Governo Provisório, estabelecido pelos insurgentes, e a demais entretem principios diametralmente opposlos aos da revolução. Naõ podemos pois, vistas estas consideraçoens, deixar de dar credito ás asserçoens desta testemunha occular, quando descreve a administração em Pernambuco tam cheia de abusos, que até os olhos menos previdentes conheciam, que a machina do Governo estava caindo a pedaços por si mesma. Em um ponto certamente naõ concordamos com aquelle escriptor, e vem a ser, que elle attribue a desorganização, que observava em Pernambuco, á pessoa do Governador, quando nós mui decididamente a imputamos ao systema.
Luís do REGO BARRETO 1777-1840
Fig. 05 –  O general Luís do REGO BARRETO – o mais odiado dos governantes de Pernambuco - teve  o seu retrato graças à abertura estética trazida pela  Missão Artística  Francesa ao Brasil.. O general e o nobre REGO BARRETO conduziu uma administração dúbia e eclética que se  compunha com a máquina militar e civis. Assim conseguiu desagradar a uns e outros.   

E a prova disto a achamos, no que succede em todas as mais capitanias, e com todos os mais Governadores, como se pode ver, pelas noticias, que temos de tempos a tempos publicado era nosso Periódico, e, por exemplo, no que tem suecedido no Marahaõ, sob o governo de muitos e diversos Governadores. Desejamos porém aqui explicar-nos claramente, que esses abusos nunca podiam justificar uma rebelião; mas dizemos, que saõ provocação mais que bastante. E, pela experiência que a historia nos ensina, he claro ser da natureza humana, que, quando em uma naçaõ faltam os meios constitucionaes de poderem os povos representar as suas queixas ao Imperante, sempre appéliam, com direito ou sem elle, para os meios da força: e por fim se vê o Governo obrigado a declarar guerra contra seus subditos, d' onde se seguem todas as misérias e desgraças, concomitantes das guerras civis.
Fig. 06 –  A extensa capitania de Pernambuco  perdeu territórios imensos em consequência da REVOLUÇÂO de 1817. A máquina militar destroçou o poder civil e eventuais recursos para reerguer qualquer vestígio de PODER ORIGINÀRIO. Este  PODER ORIGINÀRIO que excluía toda a população escrava era, de fato, uma máquina de apropriação e exploração do TRABALHO e do ESFORÇO ALHEIO como da empetecada liteira, carregada nos ombros escravos

Por todas as noticias, que temos, parece, que estas foram as causas remotas da insurreição de Pernambuco ; e a causa próxima foi um rumor, que se levantou, sem o menor fundamento, de que havia entre os habitantes daquella cidade certa rivalidade e ódio dos Portuguezes Europeos, com os Portuguezes Brazilianos O Governador, em vez de acalmar tam mal fundada suspeita, e sem que tivesse acontecido um só facto, pelo qual se mostrasse existência de tal rivalidade, entre as duas classes de Portuguezes publicou a injudicionissima Ordem-do-dia, que copiamos a p 600; na qual admitte a existência dessa rivalidade e ódio; creou com isto o fundamento para sustos, que naõ existiam ; e vendo que se ateava o incêndio, determinou no dia seguinte usar de meios de rigor, mandando prender grande numero de pessoas, que lhe eram suspeitas. O exemplo e experiência das prizoens arbitrarias, taes como a Septembrizada de Lisboa, cujas victimas ainda hoje padecem, sem recurso, nem remédio, induzio naturalmente os Pernambucanos á resistência aberta; e o Governador se achou, pela série de abusos, que sempre trazem os governos ao desprezo, sem ter nem forças phisicas nem moraes, com que fizesse obedecer á sua authoridade. Neste indefezo estado se acolheo a uma fortaleza, aonde naõ tinha meios alguns de resistir. Os insurgentes lhe intimaram que se rendesse, apresentando-lhe as condiçoens em um ultimatum, que publicamos a p. 601; e que elle aceitou, fazendo o assento, em conselho de guerra, com os poucos officiaes que o seguiram, que deixamos copiado a p. 603.
Caetano PINTO de MIRANDA MONTENEGRO (1748-1827) https://pt.wikipedia.org/wiki/Caetano_Pinto_de_Miranda_Montenegro
Fig. 07 –  A administração da capitania de Pernambuco foi personalizada por Caetano PINTO de MIRANDA MONTENEGRO.  Interessado em manter  o seu cargo pouco fazia para cumprir as funções. Confiante na estrutura monocrática real do estado colonial a sua administração de Pernambuco (1814-1817) esteve distante do seu tempo, do seu lugar e da sociedade nordestina, como registra o texto do Correio Braziliense de junho de 1817..

Ficou assim Pernambuco em perfeito estado de anarchia; e por fortuna os insurgentes nomearam um Governo Provizorio, que sendo obedecido sem resistência, evitou os maiores males, que se deviam temer de tal estado das cousas. O acto por que tal Governo se nomeou, vai copiado a p. 603; e o modo por que está lavrado mostra, que foi obra do momento. Uma vez, que as revoluçoens começam pelo povo, a tendência he sempre para a forma de Governo Republicano; por mais imprópria que esta seja; por isso que as apparencias de democracia saõ as que mais lisongêam os indivíduos das classes mais numerosas. Assim os insurgentes, em vez de seguirem o conselho de um de seus mesmos membros, que propunha mandar uma Deputaçaõ ao Soberano, resolveram logo declarar-se em Estado independente; publicaram o manifesto (á p. 604.) aonde em vez de argumentos só usaram de invectivas directas contra a pessoa do mesmo Soberano: decretaram (pelo documento a p. 610.) o tractamento geral de-Vós— ; como prova de seu espirito republicano; e começaram a tomar as muitas medidas, que se vem dos papeis que publicamos de p. 607, em diante; pelas quaes se dispuzéram a manter com a força a sua independência.
Fig. 08 –  O retrato individual era inteiramente proibido no regime colonial lusitano brasileiro. A imagem personalizada e individual era privilégio de reis e de bispos e as imagens da terra estavam proibidas como propriedades secretas da coroa lusitana.   Assim imagem de ANTÔNIO GONÇALVES da CRUZ - O CABUGÀ foi recomposto a partir  de narrativas comparações e ambientações nas quais viveu este personagem. Ambientações tiveram de recorrer aos pintores holandeses que não tinham este tabu do retrato e da paisagem   

Nomearam, em conseqüência, um Agente Diplomático, que partio logo a tractar com o Governo dos Estados Unidos. Este Agente, cujo nome he Antonio Gonçalvez da Cruz[1], chegou a Boston em um navio, com bandeira do Governo insurgente; e logo saíram dali vasos de negociantes especuladores, que levaram a Pernambuco mantimentos e muniçoens de guerra.


[1] A embaixada de ANÒNIO GONÇALVES 0 CABUGÀ no ESTSADOS UNIDO

Fig. 09 –  A resistência de Recife - e  da capitania de Pernambuco - não esmoreceu com derrota de 1817 imposta pela  pesada máquina militar do regime colonial e pelo peso da dominação monocrática  lusitana. Esta dominação continuou transvestida pelo regime imperial. As mesmas figuras e elites continuavam o processo  de dominação. A população escrava, o povo e aqueles que aspiravam juntar-se aos povos maias adiantados e evoluídos econômica, técnica e socialmente  tiveram de retornar nos anos 1824 e 1848  a palco da revolta. Na imagem o cais deserto de Recife enquanto por ele passam ao largo os primeiros vapores europeus e norte-americanos.

Ao mesmo tempo expediram os Insurgentes outro Agente (cujo nome he Felix Jozé Tavares de Lima) para Buenos-Ayres; a fim de tractar também com o Governo Insurgente do Paraguay. No entanto que os Insurgentes mostravam a grande actividade, que se vê dos numerosos decretos, que expediram, e que sempre se observa em taes circumstancias; o Governador da Bahia publicou as tres proclamaçoens, que copiamos a p. 618; e na verdade, se os Insurgentes de Pernambuco mostraram falta de conhecimentos políticos, querendo ali estabelecer de repente uma republica, o Governador da Bahia excedeo-os na in consideração de snas proclamaçoens; pois ha muito tempo que naõ lemos tres documentos públicos tam miseráveis. Basta reflectir, que aquelle Governador assevera, por sua palavra de honra, que o Insurgente Martins he desprezado por todas as naçoens da Europa e da America, o que naõ pôde deixar de provocar a rizo; pois aquelle Governador assevera por sua palavra de honra, que um homem, que naõ éra conhecido das naçoens, éra por ellas desprezado! A outra parte destas proclamaçoens, em que o Conde dos Arcos declara, que naõ attenderá a negociação alguma, sem assegurar a morte dos cabeças da insurreição, tem a nossa mais decidida desapprovaçaõ; porque tal declaração só tende a induzir os Pernambucanos á mais obstinada resistência; mui bem disse o Poeta. Una salus victis nullam esperare salutem. A demais, ja no nosso Nº. passado expressamos a nossa opinião, que o melhor methodo de curar taes males, he evitar o sangue; este he, como disse um contemporâneo nosso, o mantimento e a nutrição das revoluçoens. Além destas proclamaçoens, o Governador da Bahia fez outra cousa, muito mais acertada, que foi armar em guerra dous navios mercantes, o Mercúrio e o Carrasco, e mandállos bloquear Pernambuco ; porém diz o rumor (posto que a verdade ainda se naõ saiba) que os taes navios naÕ levaram bastantes mantimentos, e achando também levantadas as capitanias da Paraiba, e Rio-Grande do Norte, voltaram outra vez para a Bahia, a refazer-se de mantimentos. O conde dos Arcos mandou também marchar tropas por terra; que vám debaixo do commando do Brigadeiro Joaquim de Mello, e se ajunctaraõ juncto ao Rio-de-S. Francisco; porque Sergipe d' El Rey, que he a provincia limitrophe, mostrava disposiçoens de se unir aos Insurgentes : e do Rio-deJaneiro sairam duas fragatas, para também bloquearem Pernambuco; mas naõ trouxeram nem mantimentos, nem tropa : os mantimentos haviam de ir tomállos á Bahia; e as tropas teriam de vir ao depois em navios, que se estavam preparando.
Os Governadores de Portugal também se dispuzèrano a mandar alguma força naval, para bloquear Pernambuco, mas naõ sabemos se cora offeito partio; o certo he que de Lisboa se mandou intimar ás Potências Estrangeiras, que Pernambuco ia a por-se em estado de bloqueio: o que consta pelos documentos a p. 636.
Lady Maria DUNDA GRAHAM by Sir THOMAS LAWRENCE https://alchetron.com/Thomas-Lawrence-1104208-W
Lady Maria DUNDA GRAHAM by Sir THOMAS LAWRENCE https://alchetron.com/Thomas-Lawrence-1104208-W
Fig. 10 –  A inglesa Lady Maria DUNDA GRAHAM esteve em Recife  na época da Revolução de Pernambuco. Na sua passagem pelo Rio de Janeiro registrou a natureza tropical exuberante. Porém nos seus desenhos está ausente a população e  poder civil evidentemente toda a população escrava.

Guerra do Rio-da-Prata.
Enquanto eclodia em Recife a Revolução de 1817 o governo do Rio de Janeiro estava as voltas com a ocupação militar da banda Oriental do Rio da Prata a partir de Montevidéu..
Jean-Baptiste_Debret_-_Revista_das_tropas_destinadas_a_Montevidéu_na_Praia_Grande
Fig. 11 –  As manobras  da pesada máquina militar do regime colonial no preparo para invadir o URUGUAI e TOMAR MONTEVIDÉU. Gastos que pesavam sobre a capitania de Pernambuco e que, assim,  sentia  todo o peso da dominação monocrática  lusitana. Nos primórdios da ERA INDUSTRIAL nem Portugal e muito menos o Brasil tinham fábricas de armas e equipamentos para municiar esta maquina militar desproporcional ao poder civil da Nação. Isto ensejava aos produtores de armas, munições e equipamentos militares exercer um poder de dominação que derivou para um desbragado colonialismo praticado aos países industrializados até os meados do século XX

O commentario á Nota das Potências Alliadas, que publicamos a p. 646; debaixo do nome de " Carta de um Braziliano estabelecido em Londres," foi dirigido ao Edictor da Gazeta Ingleza, chamada Times, e inserido naquelle jornal, d' onde o trasladamos.
Outra carta, debaixo da mesma assignatura, se havia ja publicado no mesmo jornal; sobre a revolução de Pernambuco; mas porque naõ continha factos e somente raciocínios, econjecturas, naõ julgamos necessário inserilla na nossa collecçaõ. E comtudo tendo-se ella feito publica, em Portuguez, tomaremos a liberdade de notar uma passagem, que nella se acha, entre as provas, que se pretendem dar, de que no Brazil naõ existiam causas algumas de descontentamento, que conduzissem á insurreição, ou rebelião, que arrebentou em Pernambuco.
Diz, ali, o Braziliano estabelecido em Londres, que tam longe está de que a Corte do Rio-de-Janeiro tractasse com menos affeiçaõ os Brazilianos, que, pelo contrario, ha muito tempo se observava no Governo certa predilecçaõ ao Brazil, em preferencia de Portugal. Se aquelle escriptor soubera, quando tal declarou, que os Governadores de Portugal estavam preparando, para dar ao Mundo, uma prova da existência de desafíèiçaõ, naquelle paiz; patenteando a suppressaõ de uma conjuração contra o Governo; talvez se naõ arriscaria a declarar, que se observava na Corte predilecçaõ de preferencia ao Brazil, em menos cabo de Portugal; porem o que está escripto ja naõ pôde recolher-se.
Mas passando á carta, que publicamos a p. 646; e que, de forma quasi official, explica os passos, que se deram, a respeito da invasão de Monte Video, muito sentimos achar ali a declaração de que aquella conquista fôra feita de accordo com a Corte de Madrid, até o ponto em que o Governo Hespanhol se arredou de seus ajustes; e que o fim daquella guerra éra oppôr-se aos progressos da revolucçaõ da America Hespanhola. Sentimos achar similhante declaração, em um papel demiofficíal; primeiramente pelo que nos diz respeito. Nos tinhamos olhado sempre aquella invasão, meramente pela face de uma medida de expediente, para cubrir as fronteiras do Brazil, contra as incursoens do chefe Artigas; e sempre suppozemos que a Corte do Rio-de-Janeiro obrava neste sentido. Agora porém temos a mortificaçaõ de nos vêr contradictos ; e de sabermos, por modo tam authentico, que nos tínhamos redondamente enganado. Sentimos, porém, ainda mais, o achar esta declaração; pelas conseqüências, que ella deve ter, quando a Carta do Braziliano chegar a Buenos-Ayres e a Caracas; porque rompendo ella o véo do mysterio, com que até agora se cubriam aquellas operaçoens, he necessário esperar, que os Governos revolucionários de Buenos-Ayres, de Caracas, e das mais colônias Hespanholas, que se tem declarado independentes, olhem para a Corte do Rio de-Janeiro, como para um inimigo de sua existência política, e naõ ja como um disputante sobre questoens de mais ou de menos território
Gravura de Gilberto Bellini - ENTRADA do GENERAL LEBOR em MONTEVIDEU
Fig. 12 –  O  general LECOR e as tropas brasileiras entraram em Montevideo no dia 20 de janeiro de 1817. Sob o pretexto do protetorado as tropas brasileiras ficaram encurraladas nas muralhas da cidade sem terem acesso ao interior e muito menos estabelecer um efetivo PODER ORIGINÀRIO desta PROVÌNCIA CISPLATINA. Apesar disto o PODER ORIGINÀRIO URUGUAIO se organizou, conseguiu lideres confiáveis e conseguiu a sua efetiva soberania e reconhecimento internacional inclusive do Brasil.

A conrespondencia, entre o Director Supremo de Buenos Ayres, e o Commandante das Tropas Portuguezas em Monte Video, mostra que, se naõ havia ja uma declaração aberta de guerra, éra porque os de Buenos-Ayres ainda criam, que as hostilidades da parte dos Portuguezes eram meramente locaes; mas quando Ia chegar dedaraçaõ do Braziliano, asseverando que tal foi a substancia da Nota appresentada, por ordem do Gabinete do Rio-de-Janeiro, ás Potências Alliadas, he impossível que em Buenos-Ayres se naõ tomem medidas de natureza bem differente da neutralidade, que até agora se tinha querido conservar: e se nisto se unirem os Insurgentes de Caracas, e de outras partes, que tem mandado corsários ao mar; naÕ sabemos como o Governo do Brazil esteja preparado para encontrar as difficuftades, que devem resultar daquella declaração.
O Braziliano estabelecido em Londres tem razaõ, quando se queixa de que a Corte do Rio-de-Janeiro naõ publicasse a tempo os seus manifestos, explicando ao mundo os motivos da sua invasão ao território de Monte Video; porque com isso teria evitado o pedirem-lhe as outras Potências essas declaraçoens; eser obrigada a fazéllas em tempo tam desvantajosocomo o presente. Mas quando aquelle escriptor tracta de bagatella a insurreição de Pernambuco, e quando suppoem que, a pezar do íêlo das demais Potências, a Corte do Rio-de-Janeiro pôde insistir em conservar a posse do território de Monte Video, pedimos licença para differirmos inteiramente de sua opinião. Pelo jornal de acontecimentos na Bahia, publicado nas gazetas Francezas, e que nôs deixamos aicma copiado a p. 665; se vê qne o Governador da Bahia se naõ acha ali seguro; e se com as prizoens, que tem feito, puder aterrar os descontentes, nem por isso se poderá dizer que tem socegado os espíritos. He neste sentido, qua a revolução de Pernambuco nunca se pôde considerar bagatella, ainda havendo forças para a subjugar; visto que, neste ponto de vista, aquella revolução he somente o symptoma de fermentação, que existe, a qual nunca se pode julgar extincta, por que se tenham decapitado uma dúzia das pessoas mais conspicuas nos seus tumultos. Porém, se naõ houveram mil outras razoens, para que a Corte do Rio de-Janeiro naõ entrasse no projecto de se combinar com a Hespanha, para extinguir uma revolução, que he ja inextinguivel; bastaya o comportamento do imbecil Governo de Hespanha, a respeito da Corte do Rio-de-Janeiro, conforme o decreve o Braziliano, para que nunca se intentasse entrar em ajustes alguns com os Hespanhoes, para subjugar suas colônias. Quem diria, que o Governo de Hespanha, depois de ter feito empenhar o Gabinete do Rio-de-Janeiro, em uma expedição contra suas colônias, havia naõ somente recusar a cooperação de suas tropas, como tinha ajuslado, mas até queixar-se ás Potências Estrangeiras de haver seu Alliado começado a cumprir com o que promettéra? Parece, ao ver isto, que governa em Hespanha o mesmo Godoy, que declarou a guerra a Portugal, pelo motivo d' este o ter auxiliado no Roussilloa, contra os Francezes seus inimigos. E com tudo tal he a politica fatal, em que o nosso Braziliano confessa haver.se envolvido a Corte do Rio-de-Janeiro
Lady Maria DUNDA GRAHAM by Sir THOMAS LAWRENCE https://alchetron.com/Thomas-Lawrence-1104208-W

Fig. 13 –  Outra vista d Rio de Janeiro da inglesa Lady Maria DUNDA GRAHAM  e realizada  da época da Revolução de Pernambuco e da tomada de Montevidéu pelas tropas luso-brasileiras. A presença desta britânica em território brasileiro e o seu trânsito livre pelas suas seriam impossíveis sem os tratados da abertura dos portos. Na prática os ingleses estavam se apropriando das regalias ibéricas e que estavam perdendo no seu conflito coma as suas TREZE COLÔNIAS rebeladas  e com as quais estavam em guerra declarada e efetiva.

O escriptor daquella carta insiste em que o exercito Portuguez poderá continuar na posse de Monte-Video; naõ obstante a confrariedade das Potências estrangeiras; naõ obstante a resistência de Buenos-Ayres; e naõ obstante a revolução de Pernambuco. Quando as ultimas noticias saíram do Rio-de-Janeiro, naõ havia afi no Gabinete senaõ um Ministro de Estado; e permitta-nos o nosso Braziliano, que lhe digamos, que as difficuldades apontadas, saõ bastantes para dar que fazer a qualquer gabinete completo, e cheio de homens de actividade e saber. As cartas do Rio-de-Janeiro, de 9 de Abril, diziam, que tinham dali saido duas fragatas para o bloqueio de Pernambuco, e se estavam aprontando tropas, que sairiam depois, para se unirem com as da Bahia, e procederem contra Pernambuco. Porém aquellas fragatas em vez de irem a Pernambuco, fôram ter á Bahia para metter mantimentos; porque os naõ tinham: ¿ Quem tem a culpa disto ? O Ministro da Marinha: ¿e quem he o Ministro da Marinha?  Naõ o ha! Os habitantes do Rio de-Janeiro tinham mostrado grande lealdade de sentimentos, para com seu Soberano, quando se soube a noticia da revolução em Pernambuco; e houveram particulares, que fizeram oífertas, uns de suas pessoas, outros e seus bens. Mas se os homens honrados estaõ promptos a desapprovar a rebelião, e decididos a prestar o seu auxilio para a derribar; por isso mesmo que saõ honrados naõ podem approvar nem os abuzos do Governo, que servem de provocação ás rebelioens, nem os erros de politica, tal como a ingerência nas colônias Hespanholas, que compromettem o Gabinete, e naõ podem senaõ servir de estorvo á prosperidade da naçaõ. A carta do Braziliano insiste, em que a guerra do Rio-daPrata naõ éra impopular no Brazil: nós assim o julgamos sempre, e como a suppunhamos útil, também de nossa parte cuidámos em ajudar, no que em nós cabia, as mesmas ideas; porém o Braziliano pôde estar certo de que a sua declaração ha de mudar estes sentimentos no Brazil, assim como fez mudar a nossa opinião; porque muito custará aos Brazilianos o convencerem-se, de que se devem sugeitar aos inevitáveis incommodos, que a guerra traz com sigo, para o fim de ajudar a metter outra vez as colônias Hespanholas, debaixo da dominação de S, M, Catholica, de quem se naõ pôde es erar outro pago por taes serviços, senaõ o que se vê das queixas que elle fez ás Potências Alliadas, nesta occasiaõ, e a guerra que declarou contra Portugal, para favorecer a França, seu commum inimigo.
- Maria Teodora da COSTA e Dionísio José MARTINS na Revolução de 1817
http://blogs.diariodepernambuco.com.br/historiape/index.php/2016/07/11/domingos-jose-martins-o-noivo-da-revolucao/
Fig. 14 –  O capixaba Dionísio José MARTINS era representante do comercio na junta governamental  criado pela REVOLUÇÃO de PERNAMBUCO de1817. Apaixonado por Maria Teodora da Costa este amor teve de superar a barreira criada entre os nativos e a hegemonia lusitana. Este namoro repetiu em Recife o eterno drama de Romeu e Julieta. Maria Teodora era filha de um dos mais ricos comerciantes lusos de Recife e traficante de escravos. O pai se opôs tenazmente à aproximação do nativo da terra e para ele de segunda categoria.
A rememoração dos gestos e concepções fundantes da soberania apoiada apenas no episódio isolado e personalizado do  GRITO do IPIRANGA de 07 de setembro de 1822 encobre, obscurece e desqualifica o imenso esforço, os trabalhos e os sacrifícios do PODER ORIGINÁRIO BRASILEIRO. Episódios anteriores como a Revolução que eclodiu  em 1817 no recife ou bem posteriores como a Revolução Farroupilha de 1835-45 jamais quiseram dividir a Nação Brasileira. Apenas estavam tentando se livrar do jugo estrangeiro e colocar os fundamentos coerentes com o PODER ORIGINÀRIO da NAÇÂO BRASILEIRO e do seu governo minimamente preocupado com o BEM COLETIVO.
Fig. 15 –  Um selo 1917 e que circulou no  CENTENÀRIO de REVOLUÇÂO DE RECIFE está no contexto do REGIME REPUBLICANO que esta Revolução apregoava e que o Brasil adotou em 1889. Certamente a reescrita permanente das narrativas fundantes de uma nação é uma das tarefas imprescindíveis para atingir um consenso, uma identidade e que redunda num PACTO e um CONTRATO NACIONAL no qual todos se reconhecem.

A reescrita das narrativas se impõe na medida em que a ÉPOCA PÓS-INDUSTRIAL avança com os seus novos meios materiais,  a sua lógica e a teleologia que lhe imanente. A História NÃO existe. Existem as narrativas que expressam e buscam conferir forma aos fatos, aos pensamentos e aos agentes que estão mergulhados na torrente do TEMPO, do seu LUGAR e da sua SOCIEDADE.
Fig. 16–  O evento passageiro  da Revolução de Pernambuco de 1817 deitou raízes e passou a integrar o imaginário do seu PODER ORIGINÁRIO. O preço, pago pelo  poder civil, foi alto e desproporcional ao saque da sua economia pelo poder central colonial lusitano e depois pelo imperial brasileiro. Certamente a liberdade conquistada com estes árduos sacrifícios, teve e tem um sabor de vitória, de conhecimento de si mesmo e de identidade própria e original.  

 Agentes, pensamentos e fato que não se repetem jamais. Porém  Marc Bloch[1] adverte (1976, p.42) que
“É tal a força da solidariedade das épocas que os laços da inteligibilidade entre elas se tecem verdadeiramente nos dois sentidos. A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado. Mas talvez não seja mais útil esforçar-nos por compreender o passado se nada sabemos do presente” .

É NESTE PRESENTE que a ÉPOCA PÓS-INDUSTRIAL avança com os seus novos meios materiais,  a sua lógica e a teleologia que lhe é imanente. As narrativas orais, escritas ou visuais se abastecem dos signos de comunicação com esta teleologia, lógica e meios que rememoram os agentes, os pensamentos e fatos conferindo-lhes formas legíveis  e façam sentido NESTE PRESENTE.


[1]              BLOCH, Marc (1886-1944)  . Introdução à História.[3ª ed] Conclusão de Lucian FEBVRE - .Lisboa :Europa- América  1976  179 p.

Antônio  PARREIRAS (1860-1937) “JOSE PEREGRINO de CARVALHO JURA FIDELIDADE à REVOLUÇAO” Tela 1918 209 x 400 cm – Palácio da Redenção – JOÂO PESSOA PB
José PEREGRINO de CARVALHO  jura  ao seu pai que não abandonará a Revolução
Fig. 17 –  A herança desta conquista da Revolução de Pernambuco de 1817 passou de pai para filho.  Pai e filho trataram de reproduzir e consolidar conhecimento de si mesmos na busca de potencial vitória, e, assim,  estabelecer as novas bases de  identidade própria e original, A escolha de um novo sistema estava feito. Faltava trabalhar com o firme objetivo de implementar este paradigma e os seus corolários. O jovem JOSE PEREGRINO de CARVALHO, foi preso e morto,  aos 19 anos de idade, e sua cabeça e mão exposta na Paraíba. No centenário da Revolução o seu feito mereceu o reconhecimento e  sua imagem figura, deste esta data,  no Palácio da Redenção em João Pessoa
A REVOLUÇÂO de 2017 na PARAIBA
.

FONTES NUMÉRICAS DIGITAIS
“CAPITANIAS” esta denominação durou até 28.02.1821, portanto CAPITANIA de PERNAMBUCO.

CORREIO BRAZILIENSE JUNHO de 1817

REVOLUÇÂO 1817 PERNAMBUCO
A embaixada nos ESTADOS UNIDOS de ANTÔNIO GONÇALVES da CRUZ -O O “CABUGÀ”

Manuel de CARVALHO PAES de ANDRADE

Padre JOÂO RIBEIRO PESSOA de MELLO MONTENEGRO  (1756-1817) e a REVOLUÇÂO dos PADRES

Gervasio PIRES FERREIRA (1758-1838)

Lady Maria DUNDA GRAHAM by Sir THOMAS LAWRENCE


General  Luis do REGO BARRETO

Caetano PINTO de MIRANDA MONTENEGRO (1748-1827)

REVOLUÇÂO de 1817

PERNAMBUCO e os seus heróis

REVOLUÇÂO de PERNAMBUCO 1817  - DATA SHOW

EXPOSIÇÂO BIBLIOTECA NACIONAL



DOCUMENTOS



SOCIEDADE 1817 RECIFE


1817: NÃO 2017

EVENTOS  2017
Este material possui uso restrito ao apoio do processo continuado de ensino-aprendizagem

Não há pretensão de lucro ou de apoio financeiro nem ao autor e nem aos seus eventuais usuários

Este material é editado e divulgado em língua nacional brasileira e respeita a formação histórica deste idioma.

NORMAS do CREATIVE COMMONS 


ASSISTÊNCIA TÉCNICA e DIGITAL de  CÌRIO JOSÉ SIMON




Referências para Círio SIMON

E-MAIL


SITE desde 2008


DISSERTAÇÃO: A Prática Democrática


TESE: Origens do Instituto de Artes da UFRGS


FACE- BOOK


BLOG de ARTE


BLOG de FAMÌLIA


BLOG “ NÃO FOI no GRITO”  - CORREIO BRAZILENSE 1808-1822


BLOG PODER ORIGINÁRIO 01


BLOG PODER ORIGINÁRIO 02 ARQUIVO


VÌDEO


                     CURRICULO   LATTES

quinta-feira, 4 de maio de 2017

151 - NÃO FOI NO GRITO

REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA
de 1817
“¿ Que tem sido os Brasileiros por espaço de 3 Séculos ?
¿ Senão colonos de Portugal ?”
CORREIO BRAZILIENSE - maio de 1817 Vol. XVIII. No. 108, p.283

Fig. 01 –  A sociedade civil da província de Pernambuco sentia todo o peso da dominação monocrática  lusitana.
Após ter suas terras devastadas na cata e, corte e simples apropriação do pau brasil as únicas empresas eram os
engenhos de cana de açúcar. Inteiramente nas mãos de sócios do reino explorava a terra, a mão de obra escrava e
remetiam para a metrópole todo o produto da pilhagem  . Sem instrução, saúde e a segurança apenas necessária
para perpetuar o colonialismo. Os mais instruídos como os clérigos não podiam mais silenciar em relação a este
sistema perverso e desumano. Assim se explica a presença de membros das ordens religiosos.
Os bispos eram funcionários nomeados pela corte e, portanto, nas mãos desta não
podiam se manifestar a não ser a favor da continuidade da exploração colonial


A angústia diante da mudança iminente e incontrolável sempre fez com que aqueles ameaçados de perder as suas mordomias, seus cargos e seu poder não vacilassem em recorrer a uma hermenêutica absurda. Em maio de 1817 defendiam  a “POSSE dos seus CARGOS” gerados e garantidos pelo sistema monocrático, centralista e inteiramente deslocada do seu TEMPO, seu LUGAR e de sua SOCIEDADE.

Pouco lhes importava a ORIGEM do SEU PODER. Acreditavam que o SEU PODER era de ORIGEM divina, eterna e inquestionável.

Esta era a norma da crua e singela dominação lusitana,  em 1817,  conforme é possível ler numa carta endereçada ao redator do

CORREIO BRAZILIENSE MAIO de 1817 VOL. XVIII. No. 108. Correspondencia - pp. 582-284

Carta ao Redactor, contra a revolução de Pernambuco.

Senhor Redactor do Correio Braziliense.

Naõ sei se valha a pena emportunallo, e aos seos Leitores sobre os Rebeldes, e Salteadores de Pernambuco; mas como cá na Europa sempre soam as cousas com estrondo pelos Trombetas dos gazeteiros, e se lhes dá differente sentido, dezejara me quizesse dar um piqueno lugar no seo Jornal para umas breves observaçoens sobre a matéria.

Tudo, que tem succedido em qualquer tempo, como sublevaçaõ, ou rebelião tem sido sempre conseqüência, e resultado da frouxidaõ dos governos, que deixam dar por paos, e por pedras os espirites turbulentos, e ambiciosos; e que sempre pretextam com uma, ou outra falta da parte do Governo. He um facto mais que escandalozo a frouxidam, que tem havido nos governos do Brazil, principalmente no de Pernambuco: aonde se cometiam impunemente os maiores ottentados, e aonde a mullatada a mais petulante do Brazil comettia assasinios, e dava facadas a toda a hora nas ruas publicas, sem d'isto se embaraçar, nem o Governador, nem o Ouvidor; um naõ cuidando que em jogar, e nada o podendo dezarraigar do Poqo da Panela I o outro que dar o exemplo desfollar os habitantes, e os Povos nas Correiçoens que fazia.
Fig. 02 –  CAETANO PINTO de MIRANDA  MONTENEGRO (1804-1817)[1] foi governador de Pernambuco
entre 1804 e 1817  certamente não era persona grata ao missivista do Correio Braziliense. 
No entanto este nobre permaneceu ao lado de Dom Pedro I e foi detentor de diversas pastas nos
primórdios do Império Brasileiro  O seu longo governo de Pernambuco certamente lhe deu uma um
visão claro de que lado deveria permanecer. Na essência tratava-se de estabelecer as
condições para a soberania brasileira.

 Todos que tem estado em Pernambuco conhecem estas e outras que lá se practicavam '. Assim mesmo porque os chamados amigos do Soberano nunca se attrevem a dizer-lhe a verdade com medo de receberem má Cara tem estado um Governador o mais incapaz de tal nome em um Governo, aonde se precizava um homem d'Energia, e de Talento; e portanto ninguém se deverá espantar do que se vê sueceder, eu naõ sou da oppiniaõ dos que aqui dizem que he ao Governador a quem se deveria dar um castigo exemplar por naõ ter feito o seo dever; porquanto s'elle tem estado na Capitania, ha mais de 15 annos, sem mostrar energia, e capacidade alguma para tal lugar; e assim mesmo se tem conservado! De quem he a culpa? d'elle? ou dos Ministros que se mettem em tudo, e fazem tudo ? o mesmo digo dos outros governos, e governadores, e com particularidade do  Rio Grande do Norte, para onde pela antiga tarifa de procurarem lugares para os homens, em lugar de procurarem homens para os lugares; naõ só encaixaram um rapaz sem estudos, nem experiência, mas se tem la conservado! porem asuim o querem! assim o tenham! o que he lastima, he ver á testa de tal Sublevaçaõ homens de similhante cabeça! ainda que d'a!gum modo he coherente e faz honra ao resto dos Brasileiros ser tal motim feito per tal gente!!
Fig. 03 –   A cidade de Recife era o resultado de um mundo de trocas comerciais e interações  de culturas .
Resultado de  trocas nas rotas entre Europa , África,  Ásia e  América e comandada por forte vigilância lusitana.
As diversas culturas indígenas, africanas, holandesas e lusitanas em encontrara ali pontes e formas para estabelecer
as bases da identidade brasileira

Que pretextos podiam e podem ter os Brazileiros para se fazerem rebeldes muito mais na época, em que estamos! Que tem sido os Brasileiros por apaço de 3 Séculos ? Senaõ colonos de Portugal ? E quando se vè que no espaço de tanto tempo e em tal situação nunca se sublevaram, antes respeitaram á risca as mesmas auctoridades secundarias; e agora que saõ eivados á Dignidude a que toda a Sociedade civilizada aspira, isto he, que saõ emancipados, e denominados no Mundo, e na Posteridade com o titulo de Naçaõ e Reyno, e que até tem a vantagem de terem o Soberano comsigo, que se collegirá? Se naõ, que as almas nascidas, e creadas na escravidão estranham a liberdade! e saõ indignas della! Naõ tiveraõ elles uma aberta de 60 annos até 1640 ? e se o Dominio Portuguez he tyrannico, e mao; porque suspiraram poreKe ? e tanto sacrifício fizeram tanto rasgo de valor, e heroicidade mostraram por sacudir o jugo Hollandez, que a pezar da sua constituiaçu republicana na Europa, se conduzi m no Brazil, como fazem todos os que saõ Democráticos por força!
Fig. 04 –  A posição de Recife era estratégica para um plano e um complô para libertar Napoleão Bonaparte da
ilha de Santa Helena. A cidade de Nova Orleans era residência de muitos franceses que permaneceram neste
lugar após as aquisições norte americanas das antigas colônias francesas.. Da parte do norte- americanos eles 
não alimentavam grandes estima pelos britânicos depois que as tropas inglesas queimara a cidade de Washington
em 1812..Além disto tinham ajudado na Revolução Francesa. Assim a presença de Napoleão em seu território
não era algo estranha muito menos inimiga

O preso na ilha de Santa Helena era o ponto no qual nem revolucionários e nem defensores do rei tocavam. Somente dois séculos depois surgiram luzes e índices das secretas démarches para libertar Napoleão Bonaparte de uma ilha ente o Brasil e a África. As rotas das navegações entre as possessões portuguesas passavam próximas da Ilha de Santa Helena. Pernambuco - e a sua capital Recife - seria o ponto ideal para o complô e o caminho natural para raptar Napoleão e leva-lo aos Estados Unidos, especialmente para Nova Orleans[1]


[1] Complô para libertar Napoleão da Ilha de Santa Helena http://blog.msmacom.com.br/um-complo-para-raptar-napoleao/

Fig. 05 –  O imperador Napoleão Bonaparte preso na Ilha de Santa Helena teve tempo e inteligência suficiente
para reescrever a sua biografia. Não se sabe seus os ecos da conspiração chegaram ao seu conhecimento.
E  se chegaram certamente ele avaliou corretamente o que uma aventura extemporânea,  deste porte, 
poderia significar para a sua biografia.
  .
Que pretextos podia ter tal gente para se mostrar rebelde! e isto em hnma época, em que o seu Soberano prefere a privação de todos os commodos que os seos Antepassados possuiaõ, e elle mesmo na Europa ao separar-se d'elles, vivendo muito embora em uma Barraca! pois que assim se pode chamar a habitação do Rio-de-Janeiro em comparação doa Palácios de Mafra; d'Ajuda; das Necessidades, de Villa Viçoza, &c. &c. O que deve custar mais a todo o Pernambucano digno do nome, e da honra dos seos antepassados he o considerarem, que se algum Povo no Brazil deveria ser orgulhoso em possuir o nome de fiel, e leal era o de Pernambuco: pois que para isto basta ler a historia de 1630 ate 1660 e vêr os factos assombrozos, que os Pernambucanos practicaram até conseguirem expulsar de todo os Hollandezes: he verdade que nesse mesmo tempo de maior lealdade, e heroicidade dos Pernambucanos apparecêo um outro Domingos Calabar!! porem em todo o tempo os houve I
Fig. 06 –  A bela e significativa bandeira do atual estado de  Pernambuco  possui a sua origem na Revolução de 1817 Porém sem imprensa e especialmente uma população analfabeta e anestesiada pelo colonialismo e sufocada pela escravidão legal não adiantavam os belos textos manuscritos e as imagens mais sugestivas. .

O intrigante não se lembra - ou não queria se lembrar - do vazio de poder que se seguiu à expulsão dos holandeses até que a coroa portuguesa reivindicasse o poder depois de todos os perigos cessassem. Este período (1666-1715) no qual - um século antes da Revolução de 1817 - foi necessário improvisar um governo e que Evaldo Cabral de Melo descreveu na sua obra A FRONDA dos MAZOMBOS: nobres contra os mascates 
Tomada do Palácio das Princesas pelos Revoltosos de 1817
Fig. 07 –  O populismo e os movimentos de massa não tinham alcance do que fato estava em jogo. Prestava-se para MAIS UM EVENTO dos muitos que se multiplicavam no Brasil ao longo do período colonial.. Contra esta massa desinformada, anestesiada e pobre bastava “mandar imediatamente um armamento, a Pernambuco, que em quanto a mim,  2 fragatas bem guarnecidas são mais que suficientes para castigar os rebeldes e pôr tudo na ordem” como sugere o final da carta o missivista do Correio Braziliense.

Se os pernambucanos tinham alguma razam de queixa: Se os mantimentos faltaram e se o Ministro do Ultramar naõ fazia o seo dever! tinhaõ ja por ventura elles tido recurso ao seo Soberano! Naõ tem os Brasileiros o previlegio e a vantagem que nenhuma outra Naçaõ tem na mesma Europa civilizada: que he fallar ao Soberano quazi todos os dias! Talvez por o Soberano se familiarizar muito, e ser melhor para cora muitos, do que merecem he que assim lhe pagam! Jamais Naçaõ se poderá lizonjear de ter um Soberano com as proporçoens e qualidades para se tirarem es maiores vantagens, e fazer-se tudo de grande: como os Portuguezes da Europa e da America podem; como todos sabem.
Julgamento do Padre Miguelinho
Fig. 08 –  Inútil argumentar quando os juízes e o  auditório querem outra coisa do que a verdade do colonialismo, da prepotência e da decisão já tomada de antemão contra a vitima solitária e sem advogado de defesa . Repete-se a cena e as circunstâncias do julgamento de Sócrates, Cristo e tanto outro mandados para a fogueira da Santa Inquisição.  


Entre os muitos factos, que comprovam esta verdade, he nm a Energia, e Determinação que teve o Soberano de Portugal, no meio da Degradação que impestava os outros Soberanos da Europa, de ser elle o que naõ quiz humiliar-se a Napoleaõ, e que preferio todos os incommodos á humiliaçaõ servil da Europa; sendo Elle, e só Elle o que se determinou a partir para os seos Estados do Brazil.- digo só elle , para tirar a duvida, em que V. M. ainda parece estar, se foram conselhos do Ministro d'estado ou naõ; como vi no seo jornal do mez passado. Outro facto he achar-se o Soberano de Portugal vivendo no Brazil sem la ter, nem fazer por ter os Grandes Estabelicimentos de commodidade, e luxo annexos á Soberania, que os seos Antepassados tinham feito na Europa. E isto só por querer cuidar nos Interesses dos seos vassallos, e do Estado sacrificando a elles os secs pessoaes.' Isto sãõ factos mais que extraordinários, e que nimguem se atreverá a disputar. No entanto depois de tudo isto; jamais Soberano foi mais infeliz: pois que com todas as proporçoens, e qualidades, que tem para fazer uma grande Naçaõ, e um grande Império; naõ tem tido a fortuna de achar um homem! naõ digo com isto que naõ haja gente em Portugal e no Brazil capaz: maõ sim que os naõ tem achado. Nunca Soberano no Mundo se vio em situação de precizar mais de conselheiros capazes, e honrados que na Época presente. A mudança da sede de um Governo estabelecido por 6 séculos em uma parte da Europa para o Sul d'America, e portanto as grandes consideraçoens a contemplar n'esta mudança, o paiz vizinho ás suas possessoens do sul todo sublevado e em revolução, as suas possessoens do Norte cheas de rebeldes. Tudo isto precisava gente capaz, que se despisse do egismo que tanto hoje domina, e por tanto elle dominar, he que accontece o que se esta vendo. Os Governadores da Bahia e do Rio ja noutro tempo sem outras instrucçoens, que as do seo dever, e da sua consciência mandaram expediçoens ás Costas de Pernambuco, com que as limparam de piratas Inglezes, e bateram os Hollandezes: os Governadores de Portugal a fazerem o seo dever, e altèndendo a distancia, em que está o Soberano, eá urgência do cazo deviam e devem mandar immediatamente um armamento, a Pernambuco, que em quanto a mim 2 fragatas bem guarnecidas saõ mais que sufficientes para castigar os rebeldes e pôr tudo na ordem,

. Sou seu mto. venr. e criado,
Julgamento de Frei Caneca – Pintura da Antônio Parreiras
Fig. 09 –  A vitima - sem advogado de defesa e cercada de guardas - enfrenta solitária um tribunal formado pelos defensores dos seus CARGOS . A sentença não poderia ser diferente como não tinha sido diferente a sentença de Tiradentes. Trinfava o colonialismo e no se bojo a escravidão sobre a qual se fundavam as fortunas dos juízos e acusadores. .

A insurreição republicana de Recife de 1817 foi mais um passo em direção à soberania brasileira. Este movimento nordestino confere certeza que a independência não se resumiu no GRITO do IPIRANÇA, nem numa pessoa, num único local ou nem numa data. Isto reforça a certeza que foi obra de um PODER ORIGINARIO BRASILEIRO cansado de ver e ouvir o grunhido raivoso entre os dentes das elites afirmando  “¿ Que tem sido os Brasileiros por espaço de 3 Séculos ? ¿ Senão colonos de Portugal ?”
Fig. 10 –  O PODER ORIGINÀRIO COLONIAL era constantemente bombardeado de deturpado por eventos, intrigas e castigos exemplares para dissuadi-lo de qualquer conquista de identidade  e forças próprias. Assim os eventos de cunho festivo, as procissões e celebrações religiosas e os macabros desfiles e execuções publicas eram ferramentas amplamente usadas par inculcar o poder real, a superioridade  e a “GENEROSIDADE” das elites. O missivista de maio de 1917 do Correio Brasiliense  elevava e exaltava os ACRIFICIOS  de um REI EXILADO e sem os recursos aos seus instrumentos do PODER multissecular dos seus antepassados e ficaram na Europa.


 A insurreição republicana de Recife de 1817 foi um alento para os patriotas uruguaios.  Assim puderam respirar sem o peso das tropas brasileiras cuja atenção, gente e recursos logísticos se voltaram para o Norte e não sobre os fantasmas dos sublevados por Artigas.

Porém o que não se alterou foi o sistema colonialista, e centralista dos mecanismos subliminares de sua reprodução sem fim.

Esta continua sendo a norma  conforme é possível acompanhar pelas enxurradas de notícias da mídia brasileira do mês de maio de 2017.  Enxurradas de notícias que evidenciam que as elites brasileiras ainda não se distanciaram destes pressupostos. Desqualificam, ameaçam com o fim do mundo e se retiram sem que o PODER ORIGINÁRIO tenha qualquer acesso ao seu refúgio comprado e equipado com dinheiro do erário público.

Este fato evidencia que o problema não se encontra em quem ataca e quem defende. O problema está em outra parte.

A nobreza monocrática defendia a “POSSE de seus CARGOS” pois queriam fazer crer origem divina do seu rei e dos seus sócios. No entanto não, percebiam a emergência da ERA INDUSTRIAL em toda parte e que se erguia sobre os escombros da ERA AGRÌCOLA coerente com os ciclos implacáveis da NATUREZA. As elites brasileiras, em maio de 2017, são originárias da ERA INDUSTRIAL em cujos escombros se escondem, desqualificam e atiram conta as multidões movidas pela lógica e infraestrutura da ÈPOCA PÓS-INDUSTRIAL.

No entanto não percebem, ou fingem não perceber, a corja de corruptos, aproveitadores e malfeitores que saltam dos gigantes industriais, das empreiteiras, dos bancos e das ideologias da ERA INDUSTRIAL. Na prática em maio de 2017 a soberania brasileira já perdeu o BRASIL já PERDEU o CONTROLE da sua soberania na AMAZÔNIA[1]. Cegos a esta crua realidade a  única meta da elite brasileiras é se aferrar à “POSSE de seus CARGOS” constituídos, construídos e controlados por meio da esmagadora propaganda e o velho e gasto marketing industrial.

 Se sempre foi assim ¿por que não pode continuar perpetuamente?.


[1] EM MAIO de 2017 o BRASIL já havia perdido novamente  o CONTROLE da soberania da AMAZÔNIA


Fig. 11 –  O pensamento dos revolucionários pernambucanos de 1817 frutificou,  ainda que tardia e errada   para as vitimas. O vitral do Palácio do Governo de Pernambuco  mitifica e narra a epopeia desta REVOLUÇÃO. Desta forma os novos DONOS do PODER e dos novos CARGOS IMPERIAIS e REPUBLICANOS  se apropriavam dos sofrimentos, das angustias daqueles que sacrificavam suas vidas, fortunas  e a sua própria memória  .



Fonte bibliográfica

MELLO, Evaldo CABRAL  de (1936 -.  A FRONDA dos MAZOMBOS: nobres contra os mascates Pernambuco  1666-1715 São Paulo: Companhia das Letras 1995 530 p.  ISBN 85-7164-503-5



Fontes numéricas digitais

CORREIO BRAZILIENSE maio de 1817 Vol. XVIII. No. 108


CRONOLOGIA de MAIO de 1817


REVOLUÇÃO de PERNAMBUCO de 1817








CORRUPÇÂO ENDÊMICA no BRASIL

Video

OUTRA INDEPENDÊNCIA, Evaldo CABRAL  de MELLO


Complô para libertar Napoleão da Ilha de Santa Helena


EM MAIO de 2017 o BRASIL PERDEU o CONTROLE da AMAZÔNIA


VULGARIZAÇÂO da POLITICA para  PERMANECER no CARGO
Este material possui uso restrito ao apoio do processo continuado de ensino-aprendizagem
Não há pretensão de lucro ou de apoio financeiro nem ao autor e nem aos seus eventuais usuários
Este material é editado e divulgado em língua nacional brasileira e respeita a formação histórica deste idioma.
NORMAS do CREATIVE COMMONS 
 

ASSISTÊNCIA TÉCNICA e DIGITAL de  CÌRIO JOSÉ SIMON

Referências para Círio SIMON
E-MAIL
SITE desde 2008
DISSERTAÇÃO: A Prática Democrática
TESE: Origens do Instituto de Artes da UFRGS
FACE- BOOK
BLOG de ARTE
BLOG de FAMÌLIA
BLOG “ NÃO FOI no GRITO”  - CORREIO BRAZILENSE 1808-1822
BLOG PODER ORIGINÁRIO 01
BLOG PODER ORIGINÁRIO 02 ARQUIVO
VÌDEO
                     CURRICULO   LATTES